Como apoiar pedagogicamente o aluno com disgrafia?

Como apoiar pedagogicamente o aluno com disgrafia?

Em matéria publicada pelo Instituto Claro em 25/05 –

A disgrafia é um transtorno que afeta a forma e a velocidade da escrita, deixando a letra ilegível.“A criança usa de forma inadequada o espaço e as margens das folhas para escrever; intercala letras maiúsculas e minúsculas ou escreve com traçado muito forte ou fraco”, exemplifica a doutora em psicologia e neuropsicóloga Livânia Beltrão Tavares.

“Pode haver adições, substituições ou omissões de traçado de letra e dificuldade para realizar cópias em ditados ou da lousa. Como consequência, o aluno resiste em realizar atividades escritas e, à medida que aumenta a demanda acadêmica, apresenta dificuldade de aprendizagem”, completa a psicopedagoga e doutora em ciências médicas Sonia das Dores Rodrigues.

Há uma relação entre disgrafia e dislexia. Para alguns autores, a dislexia é um transtorno de leitura e, a disgrafia, específico da escrita. “Já outros não veem diferença entre as duas”, esclarece Tavares. “Parte das crianças com dislexia costumam apresentar disgrafia também”, acrescenta Rodrigues.

Esquecendo as letras

Apesar de parecer uma atividade simples, a expressão pela escrita é algo complexo. “Escrever à mão depende de fatores como: maturação perceptiva, que é fundamental para a discriminação das formas das letras; maturação neuromuscular, para controlar os movimentos da escrita; controle da variável cinética, que modula a força usada; controle de variáveis cinemáticas, que controlam a amplitude, direção e velocidade do movimento; assim como controle dos movimentos básicos de rotação e translação”, descreve Rodrigues.

“Falhas no desenvolvimento funcional do sistema cerebral fazem com que fatores interfiram na escrita, ou seja, a disgrafia é uma disfunção cerebral e exige intervenções”, enfatiza Rodrigues.

Psicopedagoga e professora do Instituto Singularidades, Marta Gonçalves vê duas causas relacionadas à disgrafia. “A dificuldade na escrita pode ser mais motora, ou seja, a criança consegue até falar e ler bem, mas na hora da coordenação motora fina, no momento de escrever as letras, não realiza movimentos e posturas de mão corretos”, descreve. “Ela pode escrever com lentidão porque não lembra das letras e, na tentativa de escrever, as aglutina de maneira ilegível. Nesse caso, não consegue relacionar o sistema simbólico e as grafias que representam os sons das palavras”, completa.

Brincadeiras são preventivas

Tavares lembra que a disgrafia não pode ser diagnosticada antes do início do processo de alfabetização, no primeiro ciclo do ensino fundamental. “Uma criança alfabetizada e forçada a escrever cedo pode não apresentar psicomotricidade fina, pegando o lápis inadequadamente”, justifica.

Rodrigues conta que, na prática clínica, é comum as crianças chegarem para avaliação mais tarde: “Não é incomum que a ‘letra feia’ seja atribuída a preguiça e desinteresse. É somente com o aumento da demanda acadêmica, no 3º ou 4º ano do ensino fundamental, que alterações caligráficas se tornam mais evidentes e se busca ajuda”.

Tavares lembra que as brincadeiras e atividades na educação infantil servem de prevenção para o desenvolvimento do transtorno. “Brincadeiras de roda trabalham a lateralidade. Já as com sombras estimulam as percepções visuais e motoras. O mesmo vale para os traçados dos desenhos, uma vez que as primeiras letras que a criança escreve serão sempre grandes. Posteriormente é que serão colocadas dentro do espaço da linha e margens”, explica.

Segundo ela, o professor precisa de capacitação não para realizar o diagnóstico da disgrafia, mas para saber identificar seus sinais. “A criança com sinais do transtorno deve ser encaminhada ao psicopedagogo ou psicomotricista. Nas escolas públicas, uma alternativa é orientar a família a buscar as clínicas-escolas das faculdades de psicologia, que oferecem atendimento gratuito à população”, orienta Tavares.

Apoio pedagógico

Caso a criança apresente sinais de disgrafia, Tavares aconselha ao professor não comparar a letra do aluno com a dos colegas. “Somos seres únicos, assim como a nossa letra. Não existem letras iguais. O que importa é que a escrita seja compreensível, já que escrevemos sempre para o outro”, orienta.“É necessário paciência com a reatividade da criança. Como escrever lhe traz sofrimento, pode ser comum ela reagir agressivamente e evitar tarefas escritas”, alerta.

Vale ainda respeitar o processo de maturação da criança antes de iniciar a alfabetização e aconselhar os responsáveis a não atribuírem tal dificuldade a preguiça ou falta de inteligência. “Isso gera insegurança, baixa autoestima e irá comprometê-la academicamente”, diz Tavares. Rodrigues também desaconselha submeter a criança a um processo exaustivo de treino com caderno de caligrafia. “Essa iniciativa isolada não produz os efeitos desejados e pode prejudicar a criança emocionalmente”.

Além disso, é possível fazer uma série de adaptações para ajudar no ensino e aprendizagem do estudante, como: reduzir a porcentagem de tempo de escrita e cópia da lousa; oferecer complementos escritos e optar pela metodologia de sala de aula invertida. “Pedir que responda uma questão oralmente pode ser mais fácil do que a produção de um texto”, recomenda Gonçalves.

Rodrigues sugere permitir o uso de abreviaturas nos textos escritos e desconsiderar erros ortográficos nas avaliações. “Permita uso de folhas com pauta, de materiais digitados e aconselhe o uso de adaptador de lápis”.

Gonçalves recomenda reforçar positivamente a criança nas atividades, encorajando-a a continuar o seu processo de desenvolvimento. “Evite o uso de caneta vermelha ao corrigir os textos desse aluno e ajude a explorar canetas, lápis e outros matérias com os quais se sinta mais confortável na hora de escrever”, complementa.

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