Universidades particulares concentram 97% das matrículas de EAD no RS

Universidades particulares concentram 97% das matrículas de EAD no RS

Estudantes que cursaram graduações remotas na pandemia compartilham experiências

Com o passar dos anos e o fortalecimento da Educação a Distância (EAD), que já era adotada no Ensino Superior antes da pandemia, mas se consolidou neste período, estudantes de diferentes perfis aderiram ao modelo, seja por necessidade ou pela conveniência.Em 2022, conforme o Censo da Educação Superior, o número de ingressantes em graduações EAD foi de 3 milhões no país. A modalidade vem crescendo no RS, com novos cursos e muita procura.

A maior demanda está concentrada nas universidades privadas. Dados do último Mapa do Ensino Superior, do Instituto Semesp, mostram que a rede particular do RS concentra 97,6% das matrículas em cursos remotos. Nas formações EAD da Universidade do Vale do Taquari (Univates), segundo a coordenadora pedagógica Maria Elisabete Bersch, o público é diverso, de várias faixas etárias. Cerca de 54,7% dos alunos matriculados na instituição fazem EAD.

— Temos desde alunos que saíram do Ensino Médio e optaram por fazer graduação a distância até pessoas mais velhas, que pararam de estudar há muito tempo e têm a rotina mais agitada, como mulheres com filhos que não têm condições de trabalhar de dia e ir à faculdades cinco noites por semana — explica.

É o caso da assessora parlamentar Fabiane Dutra Oliveira, que passou mais de 20 anos sem estudar e conseguiu retomar a formação na pandemia. Ela tem 43 anos e concluiu o Ensino Médio em Alegrete, aos 17. Mãe de duas crianças, uma de seis e outra de 13 anos, ela decidiu ir atrás do sonho de ter um diploma de Ensino Superior em 2021, quando ingressou no curso de Marketing EAD na Uniasselvi.

A experiência foi positiva e Fabiane não parou mais – a formatura foi em julho de 2023 e ela já engatou em um MBA em Gestão Pública, em agosto do mesmo ano. A assessora parlamentar concluiu a pós-graduação em janeiro deste ano e está prestes a começar outra na mesma instituição, em Publicidade, Propaganda e Mídias Sociais.

— Eu já havia ingressado na UFRGS [Universidade Federal do Rio Grande do Sul]em 2015, nas Ciências Sociais, mas não consegui conciliar com o trabalho, a militância e a família. Eu já tinha tentado antes, mais jovem, mas não havia pré-vestibulares gratuitos na época e eu trabalhava muito para me manter na Capital. Para mim, foi a realização de um sonho, eu sempre quis continuar meus estudos. O EAD me possibilitou fazer uma graduação no meu tempo, com os recursos que eu tinha disponíveis, sem afetar a qualidade de vida da minha família — relata. Além de atuar na Assembleia Legislativa do RS, Fabiane é diretora nacional da União Brasileira de Mulheres.

Foi a realização de um sonho, eu sempre quis continuar meus estudos. O EAD me possibilitou fazer uma graduação no meu tempo, com os recursos que eu tinha disponíveis, sem afetar a qualidade de vida da minha família.

FABIANE DUTRA OLIVEIRA

Assessora parlamentar

O ensino remoto também abriu portas para Sariane Alves de Almeida, 28, que cursou Pedagogia EAD na Unifael. Ela prestou o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e conseguiu uma bolsa do Programa Universidade Para Todos (Prouni), em 2019, para ingressar na instituição. Boa parte da graduação foi em meio à pandemia, sendo que a formatura foi na metade de 2023. Ela chegou a ter algumas disciplinas presenciais no começo do curso e fez os estágios obrigatórios, mais perto do final da trajetória.

— Minha experiência teve altos e baixos, mas, no geral, o curso me proporcionou muita coisa boa. É um grande aprendizado em termos de saúde mental e de rotinas. Temos que desenvolver muita concentração e disciplina para conseguir organizar os estudos — conta.

No entanto, tem sido um desafio conseguir emprego na área. Sariane pretende fazer mestrado na área de Educação, mas, no momento, trabalha em uma produtora de conteúdo audiovisual.

Tecnologia deve ser usada para enriquecer ensino

Para o pesquisador Fabio Campos, que atua no Transformative Learning Technologies Lab, da Universidade de Columbia (EUA), a tecnologia pode e deve ser utilizada no Ensino Superior, mas para diversificar a oferta pedagógica, e não simplesmente para transferir as aulas presenciais para os meios digitais. Segundo ele, as instituições precisam estar atentas a isso.

— Infelizmente, grande parte das experiências EAD no Brasil são nada mais que uma transferência de processos que já existiam, muitas vezes antigos e ultrapassados, do formato presencial para a modalidade remota. Neste caso, o EAD não agrega nada. Pelo contrário, ele só prejudica, tirando o convívio entre as pessoas e abrindo portas para distrações.

Conforme o pesquisador, o ideal é que a criação de novos cursos seja freada pelo Ministério da Educação (MEC), para que haja a devida regulamentação. O ministro Camilo Santana já anunciou que haverá mudanças nas regras para cursos de formação de professores. Para Fabio, o ideal é que haja maior regulação do modelo híbrido, ou semipresencial, com aulas remotas e nos campi, empregando a tecnologia para agregar no processo de aprendizagem, por meio de atividades como experiências imersivas em plataformas digitais.

Na UniRitter, por exemplo, os alunos dispõem de plataformas tecnológicas que garantem simulações realistas, qualificando as experiências. Atualmente, a maior parte dos cursos da instituição são remotos: cerca de 60 cursos presenciais e semipresenciais e 220 a distância,com 70 cursos de graduação EAD e 150 pós-graduações.

— Temos parcerias com grandes empresas que oferecem softwares de simulação e realidade virtual, garantindo a qualidade de atividades práticas — destaca a diretora da instituição, Rachel Ballardin.

Na PUCRS, a pandemia serviu para consolidar diferentes modelos pedagógicos com uso da tecnologia. Em 2023, a instituição lançou 10 cursos tecnológicos online, os primeiros cursos de graduação no formato EAD. Além da criação dos cursos, a instituição passou a ofertar disciplinas online nos cursos de graduação presenciais. Cerca de 20% das matérias em cursos presenciais têm sido ofertadas remotamente.

— Quando retornamos da pandemia, voltamos diferentes. A partir das experimentações desse período, fomos melhorando e fortalecendo o ensino a distância. A universidade, alunos e professores se apropriaram melhor dessa lógica, dos recursos e plataformas. E decidimos manter online algumas disciplinas que percebemos que funcionaram bem dessa forma — afirma a pró-reitora de Graduação e Educação Continuada da PUCRS, Adriana Justin Cerveira Kampff.

A instituição também vem apostando no formato simultâneo na pós-graduação stricto sensu. Agora, em diversas disciplinas, os mestrandos e doutorandos têm a possibilidade de assistir as aulas como optarem – seja presencialmente, em sala de aula, ou pelos meios digitais, em videoconferência com o professor. A PUCRS também oferta mais de 50 cursos remotos de especialização, com ingresso de cerca de 30 mil alunos por ano.