{"id":19815,"date":"2024-06-20T10:00:33","date_gmt":"2024-06-20T13:00:33","guid":{"rendered":"https:\/\/cgceducacao.com.br\/?p=19815"},"modified":"2024-06-20T18:37:56","modified_gmt":"2024-06-20T21:37:56","slug":"foi-a-usp-quem-me-ensinou-a-ser-terraquea","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cgceducacao.com.br\/index.php\/2024\/06\/20\/foi-a-usp-quem-me-ensinou-a-ser-terraquea\/","title":{"rendered":"Foi a USP quem me ensinou a ser terr\u00e1quea"},"content":{"rendered":"<p> Celeste H. M. Ribeiro de Sousa, professora s\u00eanior da Faculdade de Filosofia, Letras e Ci\u00eancias Humanas (FFLCH) da USP<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornal.usp.br\/artigos\/escola-de-educacao-fisica-e-esporte-de-ribeirao-preto-e-a-sociedade-uma-relacao-saudavel-no-campus-de-ribeirao-preto\/attachment\/chapeu_usp-90anos_campi-pb\/\" rel=\"attachment wp-att-719956\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-719956 jetpack-lazy-image\" src=\"https:\/\/cgceducacao.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/chapeu_usp-90anos_campi-Pb.jpg\" alt width=\"1200\" height=\"100\" \/><\/a><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-lazy-fallback=\"1\" class=\"aligncenter size-full wp-image-719956\" src=\"https:\/\/cgceducacao.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/chapeu_usp-90anos_campi-Pb-1.jpg\" alt width=\"1200\" height=\"100\" \/><\/p>\n<p>Depois das f\u00e9rias do Natal de 1966, n\u00e3o voltei a Lisboa, n\u00e3o voltei \u00e0 Faculdade de Letras, onde cursava o primeiro ano de Filologia Germ\u00e2nica. O \u00faltimo Natal foi passado com meus pais, com minha av\u00f3 e Dona Lena. Sa\u00ed de Portugal, supondo ir ao encontro de mim mesma, alimentando esperan\u00e7as e fantasias mil. Sentia-me uma borboleta escapando da cris\u00e1lida. Eu ia ao encontro do amor: um amor portugu\u00eas, que se refugiara com a fam\u00edlia em S\u00e3o Paulo, para n\u00e3o participar da guerra em \u00c1frica. O Brasil era-me inteiramente desconhecido. Deixarei para tr\u00e1s uma ditadura, a de Salazar, e entrarei em outra. Governava o Brasil o General Costa e Silva. Cheguei num dia nebuloso, abafado, peganhento de umidade. Ca\u00eda uma garoa fin\u00edssima. Em S\u00e3o Paulo, fiquei na casa de meu namorado. Logo me registrei no Consulado Geral de Portugal.<\/p>\n<p>Minha entrada na USP n\u00e3o foi uma tarefa f\u00e1cil. Acabei englobada por uma s\u00e9rie de dificuldades. Na secretaria da Faculdade de Filosofia, Ci\u00eancias e Letras (FFCL), ningu\u00e9m tinha a menor ideia do Acordo entre Portugal e Brasil, assinado em 7 de setembro de 1966, que devia permitir a minha transfer\u00eancia da Universidade de Lisboa para a USP. Mandaram-me para a Secretaria Estadual de Educa\u00e7\u00e3o que, por sua vez, me mandou para o Itamarati. Foi ent\u00e3o que meu futuro sogro entrou em campo e contatou seu amigo, o deputado Ant\u00f4nio Sylvio da Cunha Bueno, que conhecia a Prof.\u00aa Am\u00e9lia Americano Domingues de Castro, da Cadeira de Did\u00e1tica Geral e Especial da Faculdade de Filosofia, Ci\u00eancias e Letras (FFCL), a qual entrou em contato com o Prof. Ant\u00f4nio Soares Amora, catedr\u00e1tico de Literatura Portuguesa.<\/p>\n<p>O Prof. Amora, muito gentilmente, escreveu-me cartas de recomenda\u00e7\u00e3o para cada catedr\u00e1tico do curso de Anglo-Germ\u00e2nicas. Fiquei, assim, autorizada a assistir \u00e0s aulas e a fazer as provas desse curso a partir de maio de 1967. O processo da transfer\u00eancia ficou simultaneamente nas m\u00e3os do catedr\u00e1tico de Alem\u00e3o e do diretor da Faculdade, Prof. Erwin Rosenthal, e foi demorado. Foi este senhor quem se empenhou em resolver a situa\u00e7\u00e3o, entrando em contato telef\u00f4nico com o c\u00f4nsul adjunto de Portugal em S\u00e3o Paulo, Sr. Heitor Manuel Prestes Maia e Silva, para se informar da veracidade e dos termos do Acordo. Minha matr\u00edcula s\u00f3 se concretizou em novembro desse ano, fazendo-me aluna regular da USP, institui\u00e7\u00e3o que, em seu interior acad\u00eamico, me acolheu com o maior carinho.<\/p>\n<p>Das aulas de L\u00edngua Inglesa ministradas pela Mrs. Stevens no 1\u00ba ano, uma enorme londrina ruiva de saias rodadas, guardo um singular encontro meu com a alteridade. Numa das aulas, veio \u00e0 baila o tema \u201cpirates\u201d para comentar e treinar conversa\u00e7\u00e3o. Naturalmente que, ao ser chamada a fazer o meu coment\u00e1rio, eu me sa\u00ed com um discurso que pensava ser universal. Articulei eu: \u201cPirates were English sailors, that spread over the seas for assaulting Portuguese vessels loaded with gold and spices\u201d. Ao ouvir tal enunciado, Mrs. Stevens, do alto de sua portentosa figura ruiva e com voz tonitroante, me devolveu: \u201cI\u2019m a Londoner and I tell you that the English people were brave sailors at the service of their country!\u201d<\/p>\n<p>Fiquei vexada com esta perspectiva diferente que nunca me ocorrera. E, assim, de pouco em pouco, fui-me recolocando no mundo. As aulas de Teoria Liter\u00e1ria dadas pela Prof.\u00aa Walnice Nogueira Galv\u00e3o, uma professora muito jovem, de cabelos curt\u00edssimos, que usava mini-mini saia, e que, no inverno, usava botas \u201cover the knee\u201d, foram extraordin\u00e1rias. Foi com ela que aprendi, de verdade, a fazer an\u00e1lise textual e po\u00e9tica em cima de \u201cA banda\u201d de Chico Buarque. Com Walnice, eu colocava conceitos em pr\u00e1tica, mesmo sem saber que manejava o \u201cNew Criticism\u201d e o \u201cFormalismo Russo\u201d.<\/p>\n<p>Lingu\u00edstica era ministrada pelo Prof. Izidoro Blickstein, bastante jovem, cuja voz a um s\u00f3 tempo potente e suave, e poderosamente invasora da minha mente, permitia-me reter e saber tudo no ato mesmo da audi\u00e7\u00e3o, sem ter que estudar. Suas aulas eram memor\u00e1veis. Minha prova final, que durou uma manh\u00e3 inteira, em que obtive a nota dez, foi publicada no Jornal H\u00edfen (do CAEL) n\u00ba 4, de 1967, p.14-16. Recordo-me tamb\u00e9m das aulas do Prof. Erwin sobre o Woyzeck, de Georg B\u00fcchner, no 3\u00ba ano. Durante a interpreta\u00e7\u00e3o, em que o professor pediu a opini\u00e3o dos alunos, na minha vez, referi-me a Marie, companheira de Woyzeck como \u201cHure\u201d (puta), porque ela, na minha perspectiva, vivia com ele amasiada. Lembro-me que esta minha designa\u00e7\u00e3o causou estranheza ao professor e isso me levou a refletir no que eu dissera e a perceber que \u201ccompanheira\u201d n\u00e3o era sin\u00f4nimo de puta. Foi nessa aula que tomei consci\u00eancia de que a hierarquiza\u00e7\u00e3o feminina, trazida de Portugal, em que as mulheres podiam ser divididas em apenas dois grupos: as casadas\/casadouras\/as puras e as outras, as putas, n\u00e3o funcionava nem na Alemanha e nem no Brasil. Que diferen\u00e7a estas aulas interativas tinham daquelas ouvidas \u00e0 dist\u00e2ncia entre professor e aluno no grande anfiteatro em Lisboa, como se discursos fossem. Os professores na FFCL\/USP estimulavam-me a pensar criticamente.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m foi no conv\u00edvio acad\u00eamico brasileiro na USP que descobri o Kardecismo, identificado com espiritismo, que para mim era uma pr\u00e1tica de pessoas supersticiosas! Fiquei espantada com o fato de mo\u00e7as universit\u00e1rias acreditarem em esp\u00edritos, assim piamente, sem d\u00favidas. Essa problem\u00e1tica da religi\u00e3o haveria de ter muitos e variados desdobramentos na minha vida. Um dia, fui questionada sobre minha cren\u00e7a nos dogmas da Igreja Cat\u00f3lica e fui obrigada a reconhecer que n\u00e3o cria neles, e dir-me-\u00e3o, com todas as letras, que n\u00e3o podia considerar-me cat\u00f3lica, e, perplexa, constatei que, realmente, nunca o fora. Al\u00e9m do Kardecismo, conheci tamb\u00e9m a Umbanda, o Candombl\u00e9, e fiquei uns tr\u00eas anos sem saber para quem rezar. Depois, mais tarde, conheci a Teosofia e a Antroposofia e, junto com os ensinamentos da Filosofia e Psicologia angariados no Liceu, fui construindo um edif\u00edcio onde tudo passou a caber.<\/p>\n<p>Meu amadurecimento no Brasil foi intensivo. Comecei a perceber de leve que nascer e crescer dentro de uma ditadura significa viver e crescer prisioneira a c\u00e9u aberto, numa cela mental, de muito estreitos horizontes! Faz-se com o c\u00e9rebro o mesmo que os japoneses antigos faziam com os p\u00e9s de suas meninas \u2013 os p\u00e9s de l\u00f3tus.<\/p>\n<p>Mas a realidade revolucion\u00e1ria \u00e0 minha volta era crua, feia, perigosa. Estava eu, uma bela manh\u00e3, 2 de outubro de 1968 na Faculdade do pr\u00e9dio da rua Maria Ant\u00f4nia 294, numa sala do primeiro andar com as janelas viradas para essa rua, na aula de Alem\u00e3o com o Prof. Sidney Camargo, quando, a certa altura, uma pedra varou o vidro da janela e caiu na sala sem atingir ningu\u00e9m. Fomos imediatamente dispensados e evacuados pelas traseiras do edif\u00edcio. Era o come\u00e7o da \u201cbatalha da Maria Ant\u00f4nia\u201d, com Jos\u00e9 Dirceu na lideran\u00e7a. Numa ida \u00e0 faculdade interditada, fiquei sabendo que o curso havia sido transferido para o Pr\u00e9dio de Hist\u00f3ria e Geografia na Cidade Universit\u00e1ria. A\u00ed, a impon\u00eancia das rampas internas do Pr\u00e9dio de Hist\u00f3ria e Geografia faziam-me lembrar as escadarias da entrada da Faculdade de Letras de Lisboa e, de repente, senti saudades! L\u00e1 estavam minhas ra\u00edzes! N\u00e3o conseguira extirp\u00e1-las em minha ca\u00e7ada \u00e0 liberdade encantada!<\/p>\n<p>Terminei o ano acad\u00eamico de 68 com m\u00e9dias boas; os exames finais, tanto escritos como orais, haviam sido abolidos. O ano letivo de 1969 come\u00e7ou numas salas pr\u00e9-fabricadas, onde hoje est\u00e1 o Instituto de Psicologia. Em 1970, j\u00e1 na FFLCH, pude usufruir do rec\u00e9m-criado \u201cCurr\u00edculo V\u201d: Ingl\u00eas, Alem\u00e3o e Portugu\u00eas. Enquanto o mundo do meu Curriculum V transcorria, outros mundos paralelos e secantes tamb\u00e9m se expandiam. Sob o General Em\u00edlio Garrastazu Medici, o regime entrara no seu per\u00edodo mais duro e repressivo, um per\u00edodo conhecido como \u201cos anos de chumbo\u201d metaf\u00f3rica e literalmente.<\/p>\n<p>Em 1971, terminando o bacharelado e a licenciatura em Portugu\u00eas, nem eu escapei da m\u00e3o da ditadura. Um dia, na faculdade, no segundo semestre, por ocasi\u00e3o de um semin\u00e1rio, que deveria ser apresentado por mim e mais tr\u00eas colegas em Pr\u00e1tica de Ensino de Portugu\u00eas, a \u00c2ngela Almeida n\u00e3o apareceu! Todas ficamos apreensivas: primeiro, porque ningu\u00e9m tinha o material que lhe caberia expor; segundo, porque as tr\u00eas (\u00e0 exce\u00e7\u00e3o de mim) eram amigas de longa data e n\u00e3o tinham ideia do motivo da falta. Assumimos de improviso a parte da \u00c2ngela e, ao final, resolvemos ir \u00e0 sua casa. Chegando l\u00e1, fomos recebidas pela m\u00e3e da \u00c2ngela, que com ela estava na sala de visitas, acompanhada de mais dois senhores, vestidos de terno e gravata, os quais, pensei, serem outras visitas. Fomos apresentadas e ficamos sabendo que os senhores pertenciam \u00e0 pol\u00edcia secreta (DOPS\/DOI-CODI\/OBAN) e que n\u00e3o poder\u00edamos sair mais dali.<\/p>\n<p>A \u00c2ngela e a fam\u00edlia estavam presas no domic\u00edlio e n\u00f3s, a partir de ent\u00e3o, tamb\u00e9m. Fiquei sabendo depois que um dos seus irm\u00e3os, estudante de F\u00edsica na USP, era supostamente guerrilheiro e estava desaparecido. A pol\u00edcia secreta, na vig\u00eancia da Opera\u00e7\u00e3o Bandeirantes, tendo como pano fundo a Opera\u00e7\u00e3o Condor, tentava levantar as suas conex\u00f5es\/comunica\u00e7\u00f5es e, portanto, n\u00f3s acab\u00e1vamos de entrar no rol dos suspeitos. Lembro-me que os dois indiv\u00edduos de terno escuro, sempre muito educadamente, entabularam comigo uma conversa serena sobre quem eu era, sobre Portugal, sobre as col\u00f4nias que, logo, eu corrigi para prov\u00edncias ultramarinas, e eles foram perguntando, e eu fui respondendo. Lembro-me de ter ficado extremamente nervosa. Deveria ter seguido da faculdade para o col\u00e9gio, onde deveria ministrar \u00e0 noite minhas tr\u00eas aulas de ingl\u00eas e fui impedida.<\/p>\n<p>Senti-me absolutamente desamparada no meio de estranhos, num pa\u00eds estranho, sem me poder comunicar com ningu\u00e9m, absolutamente impotente, n\u00e3o adiantava saber ingl\u00eas, saber alem\u00e3o, saber discutir sobre quest\u00f5es existenciais, falar sobre dignidade e direitos humanos, ali eu n\u00e3o era nada e viver essa experi\u00eancia de aniquilamento interior foi de uma tal viol\u00eancia que me deixou marcas na alma. \u201cNunca foi t\u00e3o perigoso ser estudante no Brasil\u201d, escrevem as historiadoras Lilia Schwarcz e Heloisa Starling em Brasil: uma biografia (p. 461). L\u00e1 pelas 23:00 horas, levaram-nos, as tr\u00eas (eu, Ana Maria e Maria da Penha), de carro a um outro lugar que, hoje, deduzo ter sido a sede do DOI-CODI, sucessor da OBAN, na rua Tut\u00f3ia, uma organiza\u00e7\u00e3o repressiva sob o comando do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra.<\/p>\n<p>Ali, numa sala vazia, chamaram o que deveria ser um enfermeiro e lhe pediram uma inje\u00e7\u00e3o para mim. O enfermeiro aplicou-me a inje\u00e7\u00e3o, e eu confesso que nunca em toda a minha vida voltei a sentir a mesma sensa\u00e7\u00e3o de bem-aventuran\u00e7a que me invadiu naquela noite: fiquei absolutamente serena e extraordinariamente l\u00facida com uma vis\u00e3o extremamente arguta da realidade. Que droga teria sido aquela? Depois que me acalmei, pediram para que eu n\u00e3o comentasse o ocorrido com absolutamente ningu\u00e9m e liberaram-nos. Teriam anotado os nossos nomes em fichas? Chamaram um taxi que nos levou para a casa da Ana Maria e, de l\u00e1, esta e sua m\u00e3e levaram-me tamb\u00e9m de taxi at\u00e9 minha casa \u2013 j\u00e1 passava muito da meia-noite. De fato, durante muitos e muitos anos, mantive uma pedra sobre isto, s\u00f3 me aborrecia com o fato de que em qualquer troca de ideias sobre pol\u00edtica ou religi\u00e3o, come\u00e7ava a tremer e a me sentir amea\u00e7ada. E s\u00f3, muito mais tarde, associei as duas coisas! Caetano Veloso haver\u00e1 de dizer no document\u00e1rio \u201cNarciso em f\u00e9rias\u201d, repetindo uma frase de Rog\u00e9rio Duarte, que \u201cuma vez que voc\u00ea foi preso, voc\u00ea fica para sempre preso\u201d.<\/p>\n<p>No decorrer desse ano de 1971, fui convidada a fazer P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o (Mestrado) em Alem\u00e3o. Depois, fiz o Doutorado e o P\u00f3s-Doutorado. Em 1980 fui convidada a lecionar no Curso; o concurso foi realizado mais tarde. Aqui permane\u00e7o at\u00e9 hoje, embora aposentada ainda ativa, porque a FFLCH-USP \u00e9 a minha casa no mundo amplo que me ensinou a ver!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Celeste H. M. Ribeiro de Sousa, professora s\u00eanior da Faculdade de Filosofia, Letras e Ci\u00eancias Humanas (FFLCH) da USPDepois das f\u00e9rias do Natal de 1966, n\u00e3o voltei a Lisboa, n\u00e3o voltei \u00e0 Faculdade de Letras, onde cursava o primeiro ano de Filologia Germ\u00e2nica. O \u00faltimo Natal foi passado com meus pais, com minha av\u00f3 e Dona Lena. Sa\u00ed de Portugal, supondo ir ao encontro de mim mesma, alimentando esperan\u00e7as e fantasias mil. Sentia-me uma borboleta escapando da cris\u00e1lida. Eu ia ao encontro do amor: um amor portugu\u00eas, que se refugiara com a fam\u00edlia em S\u00e3o Paulo, para n\u00e3o participar da guerra em \u00c1frica. O Brasil era-me inteiramente desconhecido. Deixarei para tr\u00e1s uma ditadura, a de Salazar, e entrarei em outra. Governava o Brasil o General Costa e Silva. Cheguei num dia nebuloso, abafado, peganhento de umidade. Ca\u00eda uma garoa fin\u00edssima. Em S\u00e3o Paulo, fiquei na casa de meu namorado. Logo me registrei no Consulado Geral de Portugal.Minha entrada na USP n\u00e3o foi uma tarefa f\u00e1cil. Acabei englobada por uma s\u00e9rie de dificuldades. Na secretaria da Faculdade de Filosofia, Ci\u00eancias e Letras (FFCL), ningu\u00e9m tinha a menor ideia do Acordo entre Portugal e Brasil, assinado em 7 de setembro de 1966, que devia permitir a minha transfer\u00eancia da Universidade de Lisboa para a USP. Mandaram-me para a Secretaria Estadual de Educa\u00e7\u00e3o que, por sua vez, me mandou para o Itamarati. Foi ent\u00e3o que meu futuro sogro entrou em campo e contatou seu amigo, o deputado Ant\u00f4nio Sylvio da Cunha Bueno, que conhecia a Prof.\u00aa Am\u00e9lia Americano Domingues de Castro, da Cadeira de Did\u00e1tica Geral e Especial da Faculdade de Filosofia, Ci\u00eancias e Letras (FFCL), a qual entrou em contato com o Prof. Ant\u00f4nio Soares Amora, catedr\u00e1tico de Literatura Portuguesa.O Prof. Amora, muito gentilmente, escreveu-me cartas de recomenda\u00e7\u00e3o para cada catedr\u00e1tico do curso de Anglo-Germ\u00e2nicas. Fiquei, assim, autorizada a assistir \u00e0s aulas e a fazer as provas desse curso a partir de maio de 1967. O processo da transfer\u00eancia ficou simultaneamente nas m\u00e3os do catedr\u00e1tico de Alem\u00e3o e do diretor da Faculdade, Prof. Erwin Rosenthal, e foi demorado. Foi este senhor quem se empenhou em resolver a situa\u00e7\u00e3o, entrando em contato telef\u00f4nico com o c\u00f4nsul adjunto de Portugal em S\u00e3o Paulo, Sr. Heitor Manuel Prestes Maia e Silva, para se informar da veracidade e dos termos do Acordo. Minha matr\u00edcula s\u00f3 se concretizou em novembro desse ano, fazendo-me aluna regular da USP, institui\u00e7\u00e3o que, em seu interior acad\u00eamico, me acolheu com o maior carinho.Das aulas de L\u00edngua Inglesa ministradas pela Mrs. Stevens no 1\u00ba ano, uma enorme londrina ruiva de saias rodadas, guardo um singular encontro meu com a alteridade. Numa das aulas, veio \u00e0 baila o tema \u201cpirates\u201d para comentar e treinar conversa\u00e7\u00e3o. Naturalmente que, ao ser chamada a fazer o meu coment\u00e1rio, eu me sa\u00ed com um discurso que pensava ser universal. Articulei eu: \u201cPirates were English sailors, that spread over the seas for assaulting Portuguese vessels loaded with gold and spices\u201d. Ao ouvir tal enunciado, Mrs. Stevens, do alto de sua portentosa figura ruiva e com voz tonitroante, me devolveu: \u201cI\u2019m a Londoner and I tell you that the English people were brave sailors at the service of their country!\u201dFiquei vexada com esta perspectiva diferente que nunca me ocorrera. E, assim, de pouco em pouco, fui-me recolocando no mundo. As aulas de Teoria Liter\u00e1ria dadas pela Prof.\u00aa Walnice Nogueira Galv\u00e3o, uma professora muito jovem, de cabelos curt\u00edssimos, que usava mini-mini saia, e que, no inverno, usava botas \u201cover the knee\u201d, foram extraordin\u00e1rias. Foi com ela que aprendi, de verdade, a fazer an\u00e1lise textual e po\u00e9tica em cima de \u201cA banda\u201d de Chico Buarque. Com Walnice, eu colocava conceitos em pr\u00e1tica, mesmo sem saber que manejava o \u201cNew Criticism\u201d e o \u201cFormalismo Russo\u201d.Lingu\u00edstica era ministrada pelo Prof. Izidoro Blickstein, bastante jovem, cuja voz a um s\u00f3 tempo potente e suave, e poderosamente invasora da minha mente, permitia-me reter e saber tudo no ato mesmo da audi\u00e7\u00e3o, sem ter que estudar. Suas aulas eram memor\u00e1veis. Minha prova final, que durou uma manh\u00e3 inteira, em que obtive a nota dez, foi publicada no Jornal H\u00edfen (do CAEL) n\u00ba 4, de 1967, p.14-16. Recordo-me tamb\u00e9m das aulas do Prof. Erwin sobre o Woyzeck, de Georg B\u00fcchner, no 3\u00ba ano. Durante a interpreta\u00e7\u00e3o, em que o professor pediu a opini\u00e3o dos alunos, na minha vez, referi-me a Marie, companheira de Woyzeck como \u201cHure\u201d (puta), porque ela, na minha perspectiva, vivia com ele amasiada. 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Fiquei espantada com o fato de mo\u00e7as universit\u00e1rias acreditarem em esp\u00edritos, assim piamente, sem d\u00favidas. Essa problem\u00e1tica da religi\u00e3o haveria de ter muitos e variados desdobramentos na minha vida. Um dia, fui questionada sobre minha cren\u00e7a nos dogmas da Igreja Cat\u00f3lica e fui obrigada a reconhecer que n\u00e3o cria neles, e dir-me-\u00e3o, com todas as letras, que n\u00e3o podia considerar-me cat\u00f3lica, e, perplexa, constatei que, realmente, nunca o fora. Al\u00e9m do Kardecismo, conheci tamb\u00e9m a Umbanda, o Candombl\u00e9, e fiquei uns tr\u00eas anos sem saber para quem rezar. Depois, mais tarde, conheci a Teosofia e a Antroposofia e, junto com os ensinamentos da Filosofia e Psicologia angariados no Liceu, fui construindo um edif\u00edcio onde tudo passou a caber.Meu amadurecimento no Brasil foi intensivo. Comecei a perceber de leve que nascer e crescer dentro de uma ditadura significa viver e crescer prisioneira a c\u00e9u aberto, numa cela mental, de muito estreitos horizontes! Faz-se com o c\u00e9rebro o mesmo que os japoneses antigos faziam com os p\u00e9s de suas meninas \u2013 os p\u00e9s de l\u00f3tus.Mas a realidade revolucion\u00e1ria \u00e0 minha volta era crua, feia, perigosa. Estava eu, uma bela manh\u00e3, 2 de outubro de 1968 na Faculdade do pr\u00e9dio da rua Maria Ant\u00f4nia 294, numa sala do primeiro andar com as janelas viradas para essa rua, na aula de Alem\u00e3o com o Prof. Sidney Camargo, quando, a certa altura, uma pedra varou o vidro da janela e caiu na sala sem atingir ningu\u00e9m. Fomos imediatamente dispensados e evacuados pelas traseiras do edif\u00edcio. Era o come\u00e7o da \u201cbatalha da Maria Ant\u00f4nia\u201d, com Jos\u00e9 Dirceu na lideran\u00e7a. Numa ida \u00e0 faculdade interditada, fiquei sabendo que o curso havia sido transferido para o Pr\u00e9dio de Hist\u00f3ria e Geografia na Cidade Universit\u00e1ria. A\u00ed, a impon\u00eancia das rampas internas do Pr\u00e9dio de Hist\u00f3ria e Geografia faziam-me lembrar as escadarias da entrada da Faculdade de Letras de Lisboa e, de repente, senti saudades! L\u00e1 estavam minhas ra\u00edzes! N\u00e3o conseguira extirp\u00e1-las em minha ca\u00e7ada \u00e0 liberdade encantada!Terminei o ano acad\u00eamico de 68 com m\u00e9dias boas; os exames finais, tanto escritos como orais, haviam sido abolidos. O ano letivo de 1969 come\u00e7ou numas salas pr\u00e9-fabricadas, onde hoje est\u00e1 o Instituto de Psicologia. Em 1970, j\u00e1 na FFLCH, pude usufruir do rec\u00e9m-criado \u201cCurr\u00edculo V\u201d: Ingl\u00eas, Alem\u00e3o e Portugu\u00eas. Enquanto o mundo do meu Curriculum V transcorria, outros mundos paralelos e secantes tamb\u00e9m se expandiam. Sob o General Em\u00edlio Garrastazu Medici, o regime entrara no seu per\u00edodo mais duro e repressivo, um per\u00edodo conhecido como \u201cos anos de chumbo\u201d metaf\u00f3rica e literalmente.Em 1971, terminando o bacharelado e a licenciatura em Portugu\u00eas, nem eu escapei da m\u00e3o da ditadura. Um dia, na faculdade, no segundo semestre, por ocasi\u00e3o de um semin\u00e1rio, que deveria ser apresentado por mim e mais tr\u00eas colegas em Pr\u00e1tica de Ensino de Portugu\u00eas, a \u00c2ngela Almeida n\u00e3o apareceu! Todas ficamos apreensivas: primeiro, porque ningu\u00e9m tinha o material que lhe caberia expor; segundo, porque as tr\u00eas (\u00e0 exce\u00e7\u00e3o de mim) eram amigas de longa data e n\u00e3o tinham ideia do motivo da falta. Assumimos de improviso a parte da \u00c2ngela e, ao final, resolvemos ir \u00e0 sua casa. Chegando l\u00e1, fomos recebidas pela m\u00e3e da \u00c2ngela, que com ela estava na sala de visitas, acompanhada de mais dois senhores, vestidos de terno e gravata, os quais, pensei, serem outras visitas. Fomos apresentadas e ficamos sabendo que os senhores pertenciam \u00e0 pol\u00edcia secreta (DOPS\/DOI-CODI\/OBAN) e que n\u00e3o poder\u00edamos sair mais dali.A \u00c2ngela e a fam\u00edlia estavam presas no domic\u00edlio e n\u00f3s, a partir de ent\u00e3o, tamb\u00e9m. Fiquei sabendo depois que um dos seus irm\u00e3os, estudante de F\u00edsica na USP, era supostamente guerrilheiro e estava desaparecido. A pol\u00edcia secreta, na vig\u00eancia da Opera\u00e7\u00e3o Bandeirantes, tendo como pano fundo a Opera\u00e7\u00e3o Condor, tentava levantar as suas conex\u00f5es\/comunica\u00e7\u00f5es e, portanto, n\u00f3s acab\u00e1vamos de entrar no rol dos suspeitos. Lembro-me que os dois indiv\u00edduos de terno escuro, sempre muito educadamente, entabularam comigo uma conversa serena sobre quem eu era, sobre Portugal, sobre as col\u00f4nias que, logo, eu corrigi para prov\u00edncias ultramarinas, e eles foram perguntando, e eu fui respondendo. Lembro-me de ter ficado extremamente nervosa. Deveria ter seguido da faculdade para o col\u00e9gio, onde deveria ministrar \u00e0 noite minhas tr\u00eas aulas de ingl\u00eas e fui impedida.Senti-me absolutamente desamparada no meio de estranhos, num pa\u00eds estranho, sem me poder comunicar com ningu\u00e9m, absolutamente impotente, n\u00e3o adiantava saber ingl\u00eas, saber alem\u00e3o, saber discutir sobre quest\u00f5es existenciais, falar sobre dignidade e direitos humanos, ali eu n\u00e3o era nada e viver essa experi\u00eancia de aniquilamento interior foi de uma tal viol\u00eancia que me deixou marcas na alma. \u201cNunca foi t\u00e3o perigoso ser estudante no Brasil\u201d, escrevem as historiadoras Lilia Schwarcz e Heloisa Starling em Brasil: uma biografia (p. 461). L\u00e1 pelas 23:00 horas, levaram-nos, as tr\u00eas (eu, Ana Maria e Maria da Penha), de carro a um outro lugar que, hoje, deduzo ter sido a sede do DOI-CODI, sucessor da OBAN, na rua Tut\u00f3ia, uma organiza\u00e7\u00e3o repressiva sob o comando do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra.Ali, numa sala vazia, chamaram o que deveria ser um enfermeiro e lhe pediram uma inje\u00e7\u00e3o para mim. O enfermeiro aplicou-me a inje\u00e7\u00e3o, e eu confesso que nunca em toda a minha vida voltei a sentir a mesma sensa\u00e7\u00e3o de bem-aventuran\u00e7a que me invadiu naquela noite: fiquei absolutamente serena e extraordinariamente l\u00facida com uma vis\u00e3o extremamente arguta da realidade. Que droga teria sido aquela? Depois que me acalmei, pediram para que eu n\u00e3o comentasse o ocorrido com absolutamente ningu\u00e9m e liberaram-nos. Teriam anotado os nossos nomes em fichas? Chamaram um taxi que nos levou para a casa da Ana Maria e, de l\u00e1, esta e sua m\u00e3e levaram-me tamb\u00e9m de taxi at\u00e9 minha casa \u2013 j\u00e1 passava muito da meia-noite. De fato, durante muitos e muitos anos, mantive uma pedra sobre isto, s\u00f3 me aborrecia com o fato de que em qualquer troca de ideias sobre pol\u00edtica ou religi\u00e3o, come\u00e7ava a tremer e a me sentir amea\u00e7ada. E s\u00f3, muito mais tarde, associei as duas coisas! Caetano Veloso haver\u00e1 de dizer no document\u00e1rio \u201cNarciso em f\u00e9rias\u201d, repetindo uma frase de Rog\u00e9rio Duarte, que \u201cuma vez que voc\u00ea foi preso, voc\u00ea fica para sempre preso\u201d.No decorrer desse ano de 1971, fui convidada a fazer P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o (Mestrado) em Alem\u00e3o. Depois, fiz o Doutorado e o P\u00f3s-Doutorado. Em 1980 fui convidada a lecionar no Curso; o concurso foi realizado mais tarde. Aqui permane\u00e7o at\u00e9 hoje, embora aposentada ainda ativa, porque a FFLCH-USP \u00e9 a minha casa no mundo amplo que me ensinou a ver!<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":19483,"comment_status":"close","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[59],"tags":[],"class_list":["post-19815","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-fonte-da-educacao"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.4 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Foi a USP quem me ensinou a ser terr\u00e1quea - CGC<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/www5.usp.br\/minha-historia-com-a-usp\/foi-a-usp-quem-me-ensinou-a-ser-terraquea\/\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Foi a USP quem me ensinou a ser terr\u00e1quea - CGC\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"Celeste H. M. Ribeiro de Sousa, professora s\u00eanior da Faculdade de Filosofia, Letras e Ci\u00eancias Humanas (FFLCH) da USPDepois das f\u00e9rias do Natal de 1966, n\u00e3o voltei a Lisboa, n\u00e3o voltei \u00e0 Faculdade de Letras, onde cursava o primeiro ano de Filologia Germ\u00e2nica. O \u00faltimo Natal foi passado com meus pais, com minha av\u00f3 e Dona Lena. Sa\u00ed de Portugal, supondo ir ao encontro de mim mesma, alimentando esperan\u00e7as e fantasias mil. Sentia-me uma borboleta escapando da cris\u00e1lida. Eu ia ao encontro do amor: um amor portugu\u00eas, que se refugiara com a fam\u00edlia em S\u00e3o Paulo, para n\u00e3o participar da guerra em \u00c1frica. O Brasil era-me inteiramente desconhecido. Deixarei para tr\u00e1s uma ditadura, a de Salazar, e entrarei em outra. Governava o Brasil o General Costa e Silva. Cheguei num dia nebuloso, abafado, peganhento de umidade. Ca\u00eda uma garoa fin\u00edssima. Em S\u00e3o Paulo, fiquei na casa de meu namorado. Logo me registrei no Consulado Geral de Portugal.Minha entrada na USP n\u00e3o foi uma tarefa f\u00e1cil. Acabei englobada por uma s\u00e9rie de dificuldades. Na secretaria da Faculdade de Filosofia, Ci\u00eancias e Letras (FFCL), ningu\u00e9m tinha a menor ideia do Acordo entre Portugal e Brasil, assinado em 7 de setembro de 1966, que devia permitir a minha transfer\u00eancia da Universidade de Lisboa para a USP. Mandaram-me para a Secretaria Estadual de Educa\u00e7\u00e3o que, por sua vez, me mandou para o Itamarati. Foi ent\u00e3o que meu futuro sogro entrou em campo e contatou seu amigo, o deputado Ant\u00f4nio Sylvio da Cunha Bueno, que conhecia a Prof.\u00aa Am\u00e9lia Americano Domingues de Castro, da Cadeira de Did\u00e1tica Geral e Especial da Faculdade de Filosofia, Ci\u00eancias e Letras (FFCL), a qual entrou em contato com o Prof. Ant\u00f4nio Soares Amora, catedr\u00e1tico de Literatura Portuguesa.O Prof. Amora, muito gentilmente, escreveu-me cartas de recomenda\u00e7\u00e3o para cada catedr\u00e1tico do curso de Anglo-Germ\u00e2nicas. Fiquei, assim, autorizada a assistir \u00e0s aulas e a fazer as provas desse curso a partir de maio de 1967. O processo da transfer\u00eancia ficou simultaneamente nas m\u00e3os do catedr\u00e1tico de Alem\u00e3o e do diretor da Faculdade, Prof. Erwin Rosenthal, e foi demorado. Foi este senhor quem se empenhou em resolver a situa\u00e7\u00e3o, entrando em contato telef\u00f4nico com o c\u00f4nsul adjunto de Portugal em S\u00e3o Paulo, Sr. Heitor Manuel Prestes Maia e Silva, para se informar da veracidade e dos termos do Acordo. Minha matr\u00edcula s\u00f3 se concretizou em novembro desse ano, fazendo-me aluna regular da USP, institui\u00e7\u00e3o que, em seu interior acad\u00eamico, me acolheu com o maior carinho.Das aulas de L\u00edngua Inglesa ministradas pela Mrs. Stevens no 1\u00ba ano, uma enorme londrina ruiva de saias rodadas, guardo um singular encontro meu com a alteridade. Numa das aulas, veio \u00e0 baila o tema \u201cpirates\u201d para comentar e treinar conversa\u00e7\u00e3o. Naturalmente que, ao ser chamada a fazer o meu coment\u00e1rio, eu me sa\u00ed com um discurso que pensava ser universal. Articulei eu: \u201cPirates were English sailors, that spread over the seas for assaulting Portuguese vessels loaded with gold and spices\u201d. Ao ouvir tal enunciado, Mrs. Stevens, do alto de sua portentosa figura ruiva e com voz tonitroante, me devolveu: \u201cI\u2019m a Londoner and I tell you that the English people were brave sailors at the service of their country!\u201dFiquei vexada com esta perspectiva diferente que nunca me ocorrera. E, assim, de pouco em pouco, fui-me recolocando no mundo. As aulas de Teoria Liter\u00e1ria dadas pela Prof.\u00aa Walnice Nogueira Galv\u00e3o, uma professora muito jovem, de cabelos curt\u00edssimos, que usava mini-mini saia, e que, no inverno, usava botas \u201cover the knee\u201d, foram extraordin\u00e1rias. Foi com ela que aprendi, de verdade, a fazer an\u00e1lise textual e po\u00e9tica em cima de \u201cA banda\u201d de Chico Buarque. Com Walnice, eu colocava conceitos em pr\u00e1tica, mesmo sem saber que manejava o \u201cNew Criticism\u201d e o \u201cFormalismo Russo\u201d.Lingu\u00edstica era ministrada pelo Prof. Izidoro Blickstein, bastante jovem, cuja voz a um s\u00f3 tempo potente e suave, e poderosamente invasora da minha mente, permitia-me reter e saber tudo no ato mesmo da audi\u00e7\u00e3o, sem ter que estudar. Suas aulas eram memor\u00e1veis. Minha prova final, que durou uma manh\u00e3 inteira, em que obtive a nota dez, foi publicada no Jornal H\u00edfen (do CAEL) n\u00ba 4, de 1967, p.14-16. Recordo-me tamb\u00e9m das aulas do Prof. Erwin sobre o Woyzeck, de Georg B\u00fcchner, no 3\u00ba ano. Durante a interpreta\u00e7\u00e3o, em que o professor pediu a opini\u00e3o dos alunos, na minha vez, referi-me a Marie, companheira de Woyzeck como \u201cHure\u201d (puta), porque ela, na minha perspectiva, vivia com ele amasiada. Lembro-me que esta minha designa\u00e7\u00e3o causou estranheza ao professor e isso me levou a refletir no que eu dissera e a perceber que \u201ccompanheira\u201d n\u00e3o era sin\u00f4nimo de puta. Foi nessa aula que tomei consci\u00eancia de que a hierarquiza\u00e7\u00e3o feminina, trazida de Portugal, em que as mulheres podiam ser divididas em apenas dois grupos: as casadas\/casadouras\/as puras e as outras, as putas, n\u00e3o funcionava nem na Alemanha e nem no Brasil. Que diferen\u00e7a estas aulas interativas tinham daquelas ouvidas \u00e0 dist\u00e2ncia entre professor e aluno no grande anfiteatro em Lisboa, como se discursos fossem. Os professores na FFCL\/USP estimulavam-me a pensar criticamente.Tamb\u00e9m foi no conv\u00edvio acad\u00eamico brasileiro na USP que descobri o Kardecismo, identificado com espiritismo, que para mim era uma pr\u00e1tica de pessoas supersticiosas! Fiquei espantada com o fato de mo\u00e7as universit\u00e1rias acreditarem em esp\u00edritos, assim piamente, sem d\u00favidas. Essa problem\u00e1tica da religi\u00e3o haveria de ter muitos e variados desdobramentos na minha vida. Um dia, fui questionada sobre minha cren\u00e7a nos dogmas da Igreja Cat\u00f3lica e fui obrigada a reconhecer que n\u00e3o cria neles, e dir-me-\u00e3o, com todas as letras, que n\u00e3o podia considerar-me cat\u00f3lica, e, perplexa, constatei que, realmente, nunca o fora. Al\u00e9m do Kardecismo, conheci tamb\u00e9m a Umbanda, o Candombl\u00e9, e fiquei uns tr\u00eas anos sem saber para quem rezar. Depois, mais tarde, conheci a Teosofia e a Antroposofia e, junto com os ensinamentos da Filosofia e Psicologia angariados no Liceu, fui construindo um edif\u00edcio onde tudo passou a caber.Meu amadurecimento no Brasil foi intensivo. Comecei a perceber de leve que nascer e crescer dentro de uma ditadura significa viver e crescer prisioneira a c\u00e9u aberto, numa cela mental, de muito estreitos horizontes! Faz-se com o c\u00e9rebro o mesmo que os japoneses antigos faziam com os p\u00e9s de suas meninas \u2013 os p\u00e9s de l\u00f3tus.Mas a realidade revolucion\u00e1ria \u00e0 minha volta era crua, feia, perigosa. Estava eu, uma bela manh\u00e3, 2 de outubro de 1968 na Faculdade do pr\u00e9dio da rua Maria Ant\u00f4nia 294, numa sala do primeiro andar com as janelas viradas para essa rua, na aula de Alem\u00e3o com o Prof. Sidney Camargo, quando, a certa altura, uma pedra varou o vidro da janela e caiu na sala sem atingir ningu\u00e9m. Fomos imediatamente dispensados e evacuados pelas traseiras do edif\u00edcio. Era o come\u00e7o da \u201cbatalha da Maria Ant\u00f4nia\u201d, com Jos\u00e9 Dirceu na lideran\u00e7a. Numa ida \u00e0 faculdade interditada, fiquei sabendo que o curso havia sido transferido para o Pr\u00e9dio de Hist\u00f3ria e Geografia na Cidade Universit\u00e1ria. A\u00ed, a impon\u00eancia das rampas internas do Pr\u00e9dio de Hist\u00f3ria e Geografia faziam-me lembrar as escadarias da entrada da Faculdade de Letras de Lisboa e, de repente, senti saudades! L\u00e1 estavam minhas ra\u00edzes! N\u00e3o conseguira extirp\u00e1-las em minha ca\u00e7ada \u00e0 liberdade encantada!Terminei o ano acad\u00eamico de 68 com m\u00e9dias boas; os exames finais, tanto escritos como orais, haviam sido abolidos. O ano letivo de 1969 come\u00e7ou numas salas pr\u00e9-fabricadas, onde hoje est\u00e1 o Instituto de Psicologia. Em 1970, j\u00e1 na FFLCH, pude usufruir do rec\u00e9m-criado \u201cCurr\u00edculo V\u201d: Ingl\u00eas, Alem\u00e3o e Portugu\u00eas. Enquanto o mundo do meu Curriculum V transcorria, outros mundos paralelos e secantes tamb\u00e9m se expandiam. Sob o General Em\u00edlio Garrastazu Medici, o regime entrara no seu per\u00edodo mais duro e repressivo, um per\u00edodo conhecido como \u201cos anos de chumbo\u201d metaf\u00f3rica e literalmente.Em 1971, terminando o bacharelado e a licenciatura em Portugu\u00eas, nem eu escapei da m\u00e3o da ditadura. Um dia, na faculdade, no segundo semestre, por ocasi\u00e3o de um semin\u00e1rio, que deveria ser apresentado por mim e mais tr\u00eas colegas em Pr\u00e1tica de Ensino de Portugu\u00eas, a \u00c2ngela Almeida n\u00e3o apareceu! Todas ficamos apreensivas: primeiro, porque ningu\u00e9m tinha o material que lhe caberia expor; segundo, porque as tr\u00eas (\u00e0 exce\u00e7\u00e3o de mim) eram amigas de longa data e n\u00e3o tinham ideia do motivo da falta. Assumimos de improviso a parte da \u00c2ngela e, ao final, resolvemos ir \u00e0 sua casa. Chegando l\u00e1, fomos recebidas pela m\u00e3e da \u00c2ngela, que com ela estava na sala de visitas, acompanhada de mais dois senhores, vestidos de terno e gravata, os quais, pensei, serem outras visitas. Fomos apresentadas e ficamos sabendo que os senhores pertenciam \u00e0 pol\u00edcia secreta (DOPS\/DOI-CODI\/OBAN) e que n\u00e3o poder\u00edamos sair mais dali.A \u00c2ngela e a fam\u00edlia estavam presas no domic\u00edlio e n\u00f3s, a partir de ent\u00e3o, tamb\u00e9m. Fiquei sabendo depois que um dos seus irm\u00e3os, estudante de F\u00edsica na USP, era supostamente guerrilheiro e estava desaparecido. A pol\u00edcia secreta, na vig\u00eancia da Opera\u00e7\u00e3o Bandeirantes, tendo como pano fundo a Opera\u00e7\u00e3o Condor, tentava levantar as suas conex\u00f5es\/comunica\u00e7\u00f5es e, portanto, n\u00f3s acab\u00e1vamos de entrar no rol dos suspeitos. Lembro-me que os dois indiv\u00edduos de terno escuro, sempre muito educadamente, entabularam comigo uma conversa serena sobre quem eu era, sobre Portugal, sobre as col\u00f4nias que, logo, eu corrigi para prov\u00edncias ultramarinas, e eles foram perguntando, e eu fui respondendo. Lembro-me de ter ficado extremamente nervosa. Deveria ter seguido da faculdade para o col\u00e9gio, onde deveria ministrar \u00e0 noite minhas tr\u00eas aulas de ingl\u00eas e fui impedida.Senti-me absolutamente desamparada no meio de estranhos, num pa\u00eds estranho, sem me poder comunicar com ningu\u00e9m, absolutamente impotente, n\u00e3o adiantava saber ingl\u00eas, saber alem\u00e3o, saber discutir sobre quest\u00f5es existenciais, falar sobre dignidade e direitos humanos, ali eu n\u00e3o era nada e viver essa experi\u00eancia de aniquilamento interior foi de uma tal viol\u00eancia que me deixou marcas na alma. \u201cNunca foi t\u00e3o perigoso ser estudante no Brasil\u201d, escrevem as historiadoras Lilia Schwarcz e Heloisa Starling em Brasil: uma biografia (p. 461). L\u00e1 pelas 23:00 horas, levaram-nos, as tr\u00eas (eu, Ana Maria e Maria da Penha), de carro a um outro lugar que, hoje, deduzo ter sido a sede do DOI-CODI, sucessor da OBAN, na rua Tut\u00f3ia, uma organiza\u00e7\u00e3o repressiva sob o comando do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra.Ali, numa sala vazia, chamaram o que deveria ser um enfermeiro e lhe pediram uma inje\u00e7\u00e3o para mim. O enfermeiro aplicou-me a inje\u00e7\u00e3o, e eu confesso que nunca em toda a minha vida voltei a sentir a mesma sensa\u00e7\u00e3o de bem-aventuran\u00e7a que me invadiu naquela noite: fiquei absolutamente serena e extraordinariamente l\u00facida com uma vis\u00e3o extremamente arguta da realidade. Que droga teria sido aquela? Depois que me acalmei, pediram para que eu n\u00e3o comentasse o ocorrido com absolutamente ningu\u00e9m e liberaram-nos. Teriam anotado os nossos nomes em fichas? Chamaram um taxi que nos levou para a casa da Ana Maria e, de l\u00e1, esta e sua m\u00e3e levaram-me tamb\u00e9m de taxi at\u00e9 minha casa \u2013 j\u00e1 passava muito da meia-noite. De fato, durante muitos e muitos anos, mantive uma pedra sobre isto, s\u00f3 me aborrecia com o fato de que em qualquer troca de ideias sobre pol\u00edtica ou religi\u00e3o, come\u00e7ava a tremer e a me sentir amea\u00e7ada. E s\u00f3, muito mais tarde, associei as duas coisas! Caetano Veloso haver\u00e1 de dizer no document\u00e1rio \u201cNarciso em f\u00e9rias\u201d, repetindo uma frase de Rog\u00e9rio Duarte, que \u201cuma vez que voc\u00ea foi preso, voc\u00ea fica para sempre preso\u201d.No decorrer desse ano de 1971, fui convidada a fazer P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o (Mestrado) em Alem\u00e3o. Depois, fiz o Doutorado e o P\u00f3s-Doutorado. Em 1980 fui convidada a lecionar no Curso; o concurso foi realizado mais tarde. Aqui permane\u00e7o at\u00e9 hoje, embora aposentada ainda ativa, porque a FFLCH-USP \u00e9 a minha casa no mundo amplo que me ensinou a ver!\" \/>\n<meta property=\"og:url\" content=\"https:\/\/www5.usp.br\/minha-historia-com-a-usp\/foi-a-usp-quem-me-ensinou-a-ser-terraquea\/\" \/>\n<meta property=\"og:site_name\" content=\"CGC\" \/>\n<meta property=\"article:publisher\" content=\"https:\/\/www.facebook.com\/cgceducacao\/?locale=pt_BR\" \/>\n<meta property=\"article:author\" content=\"https:\/\/www.facebook.com\/cgceducacao\" \/>\n<meta property=\"article:published_time\" content=\"2024-06-20T13:00:33+00:00\" \/>\n<meta property=\"article:modified_time\" content=\"2024-06-20T21:37:56+00:00\" \/>\n<meta property=\"og:image\" content=\"https:\/\/cgceducacao.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/chapeu_usp-90anos_campi-Pb.jpg\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:width\" content=\"1200\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:height\" content=\"100\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:type\" content=\"image\/jpeg\" \/>\n<meta name=\"author\" content=\"cgceducacao\" \/>\n<meta name=\"twitter:card\" content=\"summary_large_image\" \/>\n<meta name=\"twitter:creator\" content=\"@https:\/\/twitter.com\/cgceducacao\" \/>\n<meta name=\"twitter:site\" content=\"@cgceducacao\" \/>\n<meta name=\"twitter:label1\" content=\"Escrito por\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data1\" content=\"cgceducacao\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:label2\" content=\"Est. tempo de leitura\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data2\" content=\"11 minutos\" \/>\n<script type=\"application\/ld+json\" class=\"yoast-schema-graph\">{\"@context\":\"https:\\\/\\\/schema.org\",\"@graph\":[{\"@type\":\"Article\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/www5.usp.br\\\/minha-historia-com-a-usp\\\/foi-a-usp-quem-me-ensinou-a-ser-terraquea\\\/#article\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/cgceducacao.com.br\\\/index.php\\\/2024\\\/06\\\/20\\\/foi-a-usp-quem-me-ensinou-a-ser-terraquea\\\/\"},\"author\":{\"name\":\"cgceducacao\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/cgceducacao.com.br\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/253bcacdd19ebc1e3b905c209b34d968\"},\"headline\":\"Foi a USP quem me ensinou a ser terr\u00e1quea\",\"datePublished\":\"2024-06-20T13:00:33+00:00\",\"dateModified\":\"2024-06-20T21:37:56+00:00\",\"mainEntityOfPage\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/cgceducacao.com.br\\\/index.php\\\/2024\\\/06\\\/20\\\/foi-a-usp-quem-me-ensinou-a-ser-terraquea\\\/\"},\"wordCount\":2142,\"publisher\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/cgceducacao.com.br\\\/#organization\"},\"image\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/www5.usp.br\\\/minha-historia-com-a-usp\\\/foi-a-usp-quem-me-ensinou-a-ser-terraquea\\\/#primaryimage\"},\"thumbnailUrl\":\"https:\\\/\\\/cgceducacao.com.br\\\/wp-content\\\/uploads\\\/2024\\\/05\\\/chapeu_usp-90anos_campi-Pb.jpg\",\"articleSection\":[\"Fonte da Educa\u00e7\u00e3o\"],\"inLanguage\":\"pt-BR\"},{\"@type\":\"WebPage\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/cgceducacao.com.br\\\/index.php\\\/2024\\\/06\\\/20\\\/foi-a-usp-quem-me-ensinou-a-ser-terraquea\\\/\",\"url\":\"https:\\\/\\\/www5.usp.br\\\/minha-historia-com-a-usp\\\/foi-a-usp-quem-me-ensinou-a-ser-terraquea\\\/\",\"name\":\"Foi a USP quem me ensinou a ser terr\u00e1quea - 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M. Ribeiro de Sousa, professora s\u00eanior da Faculdade de Filosofia, Letras e Ci\u00eancias Humanas (FFLCH) da USPDepois das f\u00e9rias do Natal de 1966, n\u00e3o voltei a Lisboa, n\u00e3o voltei \u00e0 Faculdade de Letras, onde cursava o primeiro ano de Filologia Germ\u00e2nica. O \u00faltimo Natal foi passado com meus pais, com minha av\u00f3 e Dona Lena. Sa\u00ed de Portugal, supondo ir ao encontro de mim mesma, alimentando esperan\u00e7as e fantasias mil. Sentia-me uma borboleta escapando da cris\u00e1lida. Eu ia ao encontro do amor: um amor portugu\u00eas, que se refugiara com a fam\u00edlia em S\u00e3o Paulo, para n\u00e3o participar da guerra em \u00c1frica. O Brasil era-me inteiramente desconhecido. Deixarei para tr\u00e1s uma ditadura, a de Salazar, e entrarei em outra. Governava o Brasil o General Costa e Silva. Cheguei num dia nebuloso, abafado, peganhento de umidade. Ca\u00eda uma garoa fin\u00edssima. Em S\u00e3o Paulo, fiquei na casa de meu namorado. Logo me registrei no Consulado Geral de Portugal.Minha entrada na USP n\u00e3o foi uma tarefa f\u00e1cil. Acabei englobada por uma s\u00e9rie de dificuldades. Na secretaria da Faculdade de Filosofia, Ci\u00eancias e Letras (FFCL), ningu\u00e9m tinha a menor ideia do Acordo entre Portugal e Brasil, assinado em 7 de setembro de 1966, que devia permitir a minha transfer\u00eancia da Universidade de Lisboa para a USP. Mandaram-me para a Secretaria Estadual de Educa\u00e7\u00e3o que, por sua vez, me mandou para o Itamarati. Foi ent\u00e3o que meu futuro sogro entrou em campo e contatou seu amigo, o deputado Ant\u00f4nio Sylvio da Cunha Bueno, que conhecia a Prof.\u00aa Am\u00e9lia Americano Domingues de Castro, da Cadeira de Did\u00e1tica Geral e Especial da Faculdade de Filosofia, Ci\u00eancias e Letras (FFCL), a qual entrou em contato com o Prof. Ant\u00f4nio Soares Amora, catedr\u00e1tico de Literatura Portuguesa.O Prof. Amora, muito gentilmente, escreveu-me cartas de recomenda\u00e7\u00e3o para cada catedr\u00e1tico do curso de Anglo-Germ\u00e2nicas. Fiquei, assim, autorizada a assistir \u00e0s aulas e a fazer as provas desse curso a partir de maio de 1967. O processo da transfer\u00eancia ficou simultaneamente nas m\u00e3os do catedr\u00e1tico de Alem\u00e3o e do diretor da Faculdade, Prof. Erwin Rosenthal, e foi demorado. Foi este senhor quem se empenhou em resolver a situa\u00e7\u00e3o, entrando em contato telef\u00f4nico com o c\u00f4nsul adjunto de Portugal em S\u00e3o Paulo, Sr. Heitor Manuel Prestes Maia e Silva, para se informar da veracidade e dos termos do Acordo. Minha matr\u00edcula s\u00f3 se concretizou em novembro desse ano, fazendo-me aluna regular da USP, institui\u00e7\u00e3o que, em seu interior acad\u00eamico, me acolheu com o maior carinho.Das aulas de L\u00edngua Inglesa ministradas pela Mrs. Stevens no 1\u00ba ano, uma enorme londrina ruiva de saias rodadas, guardo um singular encontro meu com a alteridade. Numa das aulas, veio \u00e0 baila o tema \u201cpirates\u201d para comentar e treinar conversa\u00e7\u00e3o. Naturalmente que, ao ser chamada a fazer o meu coment\u00e1rio, eu me sa\u00ed com um discurso que pensava ser universal. Articulei eu: \u201cPirates were English sailors, that spread over the seas for assaulting Portuguese vessels loaded with gold and spices\u201d. Ao ouvir tal enunciado, Mrs. Stevens, do alto de sua portentosa figura ruiva e com voz tonitroante, me devolveu: \u201cI\u2019m a Londoner and I tell you that the English people were brave sailors at the service of their country!\u201dFiquei vexada com esta perspectiva diferente que nunca me ocorrera. E, assim, de pouco em pouco, fui-me recolocando no mundo. As aulas de Teoria Liter\u00e1ria dadas pela Prof.\u00aa Walnice Nogueira Galv\u00e3o, uma professora muito jovem, de cabelos curt\u00edssimos, que usava mini-mini saia, e que, no inverno, usava botas \u201cover the knee\u201d, foram extraordin\u00e1rias. Foi com ela que aprendi, de verdade, a fazer an\u00e1lise textual e po\u00e9tica em cima de \u201cA banda\u201d de Chico Buarque. Com Walnice, eu colocava conceitos em pr\u00e1tica, mesmo sem saber que manejava o \u201cNew Criticism\u201d e o \u201cFormalismo Russo\u201d.Lingu\u00edstica era ministrada pelo Prof. Izidoro Blickstein, bastante jovem, cuja voz a um s\u00f3 tempo potente e suave, e poderosamente invasora da minha mente, permitia-me reter e saber tudo no ato mesmo da audi\u00e7\u00e3o, sem ter que estudar. Suas aulas eram memor\u00e1veis. Minha prova final, que durou uma manh\u00e3 inteira, em que obtive a nota dez, foi publicada no Jornal H\u00edfen (do CAEL) n\u00ba 4, de 1967, p.14-16. Recordo-me tamb\u00e9m das aulas do Prof. Erwin sobre o Woyzeck, de Georg B\u00fcchner, no 3\u00ba ano. Durante a interpreta\u00e7\u00e3o, em que o professor pediu a opini\u00e3o dos alunos, na minha vez, referi-me a Marie, companheira de Woyzeck como \u201cHure\u201d (puta), porque ela, na minha perspectiva, vivia com ele amasiada. Lembro-me que esta minha designa\u00e7\u00e3o causou estranheza ao professor e isso me levou a refletir no que eu dissera e a perceber que \u201ccompanheira\u201d n\u00e3o era sin\u00f4nimo de puta. Foi nessa aula que tomei consci\u00eancia de que a hierarquiza\u00e7\u00e3o feminina, trazida de Portugal, em que as mulheres podiam ser divididas em apenas dois grupos: as casadas\/casadouras\/as puras e as outras, as putas, n\u00e3o funcionava nem na Alemanha e nem no Brasil. Que diferen\u00e7a estas aulas interativas tinham daquelas ouvidas \u00e0 dist\u00e2ncia entre professor e aluno no grande anfiteatro em Lisboa, como se discursos fossem. Os professores na FFCL\/USP estimulavam-me a pensar criticamente.Tamb\u00e9m foi no conv\u00edvio acad\u00eamico brasileiro na USP que descobri o Kardecismo, identificado com espiritismo, que para mim era uma pr\u00e1tica de pessoas supersticiosas! Fiquei espantada com o fato de mo\u00e7as universit\u00e1rias acreditarem em esp\u00edritos, assim piamente, sem d\u00favidas. Essa problem\u00e1tica da religi\u00e3o haveria de ter muitos e variados desdobramentos na minha vida. Um dia, fui questionada sobre minha cren\u00e7a nos dogmas da Igreja Cat\u00f3lica e fui obrigada a reconhecer que n\u00e3o cria neles, e dir-me-\u00e3o, com todas as letras, que n\u00e3o podia considerar-me cat\u00f3lica, e, perplexa, constatei que, realmente, nunca o fora. Al\u00e9m do Kardecismo, conheci tamb\u00e9m a Umbanda, o Candombl\u00e9, e fiquei uns tr\u00eas anos sem saber para quem rezar. Depois, mais tarde, conheci a Teosofia e a Antroposofia e, junto com os ensinamentos da Filosofia e Psicologia angariados no Liceu, fui construindo um edif\u00edcio onde tudo passou a caber.Meu amadurecimento no Brasil foi intensivo. Comecei a perceber de leve que nascer e crescer dentro de uma ditadura significa viver e crescer prisioneira a c\u00e9u aberto, numa cela mental, de muito estreitos horizontes! Faz-se com o c\u00e9rebro o mesmo que os japoneses antigos faziam com os p\u00e9s de suas meninas \u2013 os p\u00e9s de l\u00f3tus.Mas a realidade revolucion\u00e1ria \u00e0 minha volta era crua, feia, perigosa. Estava eu, uma bela manh\u00e3, 2 de outubro de 1968 na Faculdade do pr\u00e9dio da rua Maria Ant\u00f4nia 294, numa sala do primeiro andar com as janelas viradas para essa rua, na aula de Alem\u00e3o com o Prof. Sidney Camargo, quando, a certa altura, uma pedra varou o vidro da janela e caiu na sala sem atingir ningu\u00e9m. Fomos imediatamente dispensados e evacuados pelas traseiras do edif\u00edcio. Era o come\u00e7o da \u201cbatalha da Maria Ant\u00f4nia\u201d, com Jos\u00e9 Dirceu na lideran\u00e7a. Numa ida \u00e0 faculdade interditada, fiquei sabendo que o curso havia sido transferido para o Pr\u00e9dio de Hist\u00f3ria e Geografia na Cidade Universit\u00e1ria. A\u00ed, a impon\u00eancia das rampas internas do Pr\u00e9dio de Hist\u00f3ria e Geografia faziam-me lembrar as escadarias da entrada da Faculdade de Letras de Lisboa e, de repente, senti saudades! L\u00e1 estavam minhas ra\u00edzes! N\u00e3o conseguira extirp\u00e1-las em minha ca\u00e7ada \u00e0 liberdade encantada!Terminei o ano acad\u00eamico de 68 com m\u00e9dias boas; os exames finais, tanto escritos como orais, haviam sido abolidos. O ano letivo de 1969 come\u00e7ou numas salas pr\u00e9-fabricadas, onde hoje est\u00e1 o Instituto de Psicologia. Em 1970, j\u00e1 na FFLCH, pude usufruir do rec\u00e9m-criado \u201cCurr\u00edculo V\u201d: Ingl\u00eas, Alem\u00e3o e Portugu\u00eas. Enquanto o mundo do meu Curriculum V transcorria, outros mundos paralelos e secantes tamb\u00e9m se expandiam. Sob o General Em\u00edlio Garrastazu Medici, o regime entrara no seu per\u00edodo mais duro e repressivo, um per\u00edodo conhecido como \u201cos anos de chumbo\u201d metaf\u00f3rica e literalmente.Em 1971, terminando o bacharelado e a licenciatura em Portugu\u00eas, nem eu escapei da m\u00e3o da ditadura. Um dia, na faculdade, no segundo semestre, por ocasi\u00e3o de um semin\u00e1rio, que deveria ser apresentado por mim e mais tr\u00eas colegas em Pr\u00e1tica de Ensino de Portugu\u00eas, a \u00c2ngela Almeida n\u00e3o apareceu! Todas ficamos apreensivas: primeiro, porque ningu\u00e9m tinha o material que lhe caberia expor; segundo, porque as tr\u00eas (\u00e0 exce\u00e7\u00e3o de mim) eram amigas de longa data e n\u00e3o tinham ideia do motivo da falta. Assumimos de improviso a parte da \u00c2ngela e, ao final, resolvemos ir \u00e0 sua casa. Chegando l\u00e1, fomos recebidas pela m\u00e3e da \u00c2ngela, que com ela estava na sala de visitas, acompanhada de mais dois senhores, vestidos de terno e gravata, os quais, pensei, serem outras visitas. Fomos apresentadas e ficamos sabendo que os senhores pertenciam \u00e0 pol\u00edcia secreta (DOPS\/DOI-CODI\/OBAN) e que n\u00e3o poder\u00edamos sair mais dali.A \u00c2ngela e a fam\u00edlia estavam presas no domic\u00edlio e n\u00f3s, a partir de ent\u00e3o, tamb\u00e9m. Fiquei sabendo depois que um dos seus irm\u00e3os, estudante de F\u00edsica na USP, era supostamente guerrilheiro e estava desaparecido. A pol\u00edcia secreta, na vig\u00eancia da Opera\u00e7\u00e3o Bandeirantes, tendo como pano fundo a Opera\u00e7\u00e3o Condor, tentava levantar as suas conex\u00f5es\/comunica\u00e7\u00f5es e, portanto, n\u00f3s acab\u00e1vamos de entrar no rol dos suspeitos. Lembro-me que os dois indiv\u00edduos de terno escuro, sempre muito educadamente, entabularam comigo uma conversa serena sobre quem eu era, sobre Portugal, sobre as col\u00f4nias que, logo, eu corrigi para prov\u00edncias ultramarinas, e eles foram perguntando, e eu fui respondendo. Lembro-me de ter ficado extremamente nervosa. Deveria ter seguido da faculdade para o col\u00e9gio, onde deveria ministrar \u00e0 noite minhas tr\u00eas aulas de ingl\u00eas e fui impedida.Senti-me absolutamente desamparada no meio de estranhos, num pa\u00eds estranho, sem me poder comunicar com ningu\u00e9m, absolutamente impotente, n\u00e3o adiantava saber ingl\u00eas, saber alem\u00e3o, saber discutir sobre quest\u00f5es existenciais, falar sobre dignidade e direitos humanos, ali eu n\u00e3o era nada e viver essa experi\u00eancia de aniquilamento interior foi de uma tal viol\u00eancia que me deixou marcas na alma. \u201cNunca foi t\u00e3o perigoso ser estudante no Brasil\u201d, escrevem as historiadoras Lilia Schwarcz e Heloisa Starling em Brasil: uma biografia (p. 461). L\u00e1 pelas 23:00 horas, levaram-nos, as tr\u00eas (eu, Ana Maria e Maria da Penha), de carro a um outro lugar que, hoje, deduzo ter sido a sede do DOI-CODI, sucessor da OBAN, na rua Tut\u00f3ia, uma organiza\u00e7\u00e3o repressiva sob o comando do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra.Ali, numa sala vazia, chamaram o que deveria ser um enfermeiro e lhe pediram uma inje\u00e7\u00e3o para mim. O enfermeiro aplicou-me a inje\u00e7\u00e3o, e eu confesso que nunca em toda a minha vida voltei a sentir a mesma sensa\u00e7\u00e3o de bem-aventuran\u00e7a que me invadiu naquela noite: fiquei absolutamente serena e extraordinariamente l\u00facida com uma vis\u00e3o extremamente arguta da realidade. Que droga teria sido aquela? Depois que me acalmei, pediram para que eu n\u00e3o comentasse o ocorrido com absolutamente ningu\u00e9m e liberaram-nos. Teriam anotado os nossos nomes em fichas? Chamaram um taxi que nos levou para a casa da Ana Maria e, de l\u00e1, esta e sua m\u00e3e levaram-me tamb\u00e9m de taxi at\u00e9 minha casa \u2013 j\u00e1 passava muito da meia-noite. De fato, durante muitos e muitos anos, mantive uma pedra sobre isto, s\u00f3 me aborrecia com o fato de que em qualquer troca de ideias sobre pol\u00edtica ou religi\u00e3o, come\u00e7ava a tremer e a me sentir amea\u00e7ada. E s\u00f3, muito mais tarde, associei as duas coisas! Caetano Veloso haver\u00e1 de dizer no document\u00e1rio \u201cNarciso em f\u00e9rias\u201d, repetindo uma frase de Rog\u00e9rio Duarte, que \u201cuma vez que voc\u00ea foi preso, voc\u00ea fica para sempre preso\u201d.No decorrer desse ano de 1971, fui convidada a fazer P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o (Mestrado) em Alem\u00e3o. Depois, fiz o Doutorado e o P\u00f3s-Doutorado. Em 1980 fui convidada a lecionar no Curso; o concurso foi realizado mais tarde. Aqui permane\u00e7o at\u00e9 hoje, embora aposentada ainda ativa, porque a FFLCH-USP \u00e9 a minha casa no mundo amplo que me ensinou a ver!","og_url":"https:\/\/www5.usp.br\/minha-historia-com-a-usp\/foi-a-usp-quem-me-ensinou-a-ser-terraquea\/","og_site_name":"CGC","article_publisher":"https:\/\/www.facebook.com\/cgceducacao\/?locale=pt_BR","article_author":"https:\/\/www.facebook.com\/cgceducacao","article_published_time":"2024-06-20T13:00:33+00:00","article_modified_time":"2024-06-20T21:37:56+00:00","og_image":[{"width":1200,"height":100,"url":"https:\/\/cgceducacao.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/chapeu_usp-90anos_campi-Pb.jpg","type":"image\/jpeg"}],"author":"cgceducacao","twitter_card":"summary_large_image","twitter_creator":"@https:\/\/twitter.com\/cgceducacao","twitter_site":"@cgceducacao","twitter_misc":{"Escrito por":"cgceducacao","Est. tempo de leitura":"11 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