{"id":19860,"date":"2024-07-01T15:05:13","date_gmt":"2024-07-01T18:05:13","guid":{"rendered":"https:\/\/cgceducacao.com.br\/?p=19860"},"modified":"2024-07-01T15:41:23","modified_gmt":"2024-07-01T18:41:23","slug":"da-metereorologia-na-usp-para-a-universidade-da-california","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cgceducacao.com.br\/index.php\/2024\/07\/01\/da-metereorologia-na-usp-para-a-universidade-da-california\/","title":{"rendered":"Da Metereorologia na USP para a Universidade da Calif\u00f3rnia"},"content":{"rendered":"<p> Leila Maria Vespoli de Carvalho, egressa da Instituto de Astronomia, Geof\u00edsica e Ci\u00eancias Atmosf\u00e9ricas (IAG) da USP<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jornal.usp.br\/artigos\/escola-de-educacao-fisica-e-esporte-de-ribeirao-preto-e-a-sociedade-uma-relacao-saudavel-no-campus-de-ribeirao-preto\/attachment\/chapeu_usp-90anos_campi-pb\/\" rel=\"attachment wp-att-719956\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-719956 jetpack-lazy-image\" src=\"https:\/\/cgceducacao.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/chapeu_usp-90anos_campi-Pb.jpg\" alt width=\"1200\" height=\"100\" \/><\/a><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-lazy-fallback=\"1\" class=\"aligncenter size-full wp-image-719956\" src=\"https:\/\/cgceducacao.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/chapeu_usp-90anos_campi-Pb-1.jpg\" alt width=\"1200\" height=\"100\" \/><\/p>\n<figure id=\"attachment_223005\" aria-describedby=\"caption-attachment-223005\" class=\"caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" data-lazy-fallback=\"1\" class=\"wp-image-223005 size-medium\" src=\"https:\/\/cgceducacao.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/Leila_Colacao_de_grau_Brasil-381x280-1.jpg\" alt width=\"381\" height=\"280\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-223005\" class=\"caption-text\">Professor Melfi, Gilberto Smith, Charles Jones (atr\u00e1s de mim, que, por sinal, \u00e9 meu marido hoje), Andrea Hahmann e Leslie Molnary \u2013 Foto: Arquivo Pessoal<\/figcaption><\/figure>\n<p>Minha hist\u00f3ria com a USP come\u00e7ou aos 9 anos quando nos mudamos do bairro da Pompeia para o ent\u00e3o Jardim Previd\u00eancia, em S\u00e3o Paulo. Da janela da sala da nova casa, era poss\u00edvel ver alguns pr\u00e9dios da USP no horizonte ao longe. Naquela \u00e9poca, eu desenvolvi uma grande paix\u00e3o por Astronomia. Eu ganhei um pequeno telesc\u00f3pio com o qual me divertia vendo planetas durante a noite e os pr\u00e9dios da USP durante o dia. Minha m\u00e3e tamb\u00e9m gostava de contempl\u00e1-los comigo, e nunca perdia a oportunidade de dizer: \u201cLeila, \u00e9 l\u00e1 que voc\u00ea vai estudar\u201d. Tornar-me uma aluna da USP foi uma ideia que me acompanhou como um sonho a tiracolo por todos os anos de col\u00e9gio.<\/p>\n<p>Minha primeira Fuvest marcou meu 18\u00ba anivers\u00e1rio. Como n\u00e3o havia curso de gradua\u00e7\u00e3o em Astronomia na \u00e9poca, a F\u00edsica dominou todas as minhas op\u00e7\u00f5es. A ideia era fazer F\u00edsica e depois uma p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Astronomia\/Astrof\u00edsica. Contudo, como todo bom adolescente, estava bem confusa sobre meu futuro. O sonho de inf\u00e2ncia de ser uma astr\u00f4noma, descobrir planetas e buracos negros e um dia revolucionar a Astrof\u00edsica ainda me acompanhava como uma velha promessa a ser cumprida. Por\u00e9m, como muitos jovens da \u00e9poca, sentia uma comich\u00e3o interior t\u00edpica de uma gera\u00e7\u00e3o que experimentava democracia pela primeira vez, e que sentia a miss\u00e3o de garantir estabilidade pol\u00edtica e justi\u00e7a social.<\/p>\n<p>Na minha cabe\u00e7a, intelectualmente essa miss\u00e3o s\u00f3 poderia ser cumprida por algu\u00e9m que se dedicasse \u00e0s \u201chumanidades\u201d. Conflito pessoal e de valores. Prestei vestibular para a F\u00edsica na USP e Ci\u00eancias Socias na PUC. Mas a USP \u201csabia\u201d que n\u00e3o era o meu tempo e que todo aquele namoro \u00e0 dist\u00e2ncia necessitava amadurecer antes de se tornar um matrim\u00f4nio. N\u00e3o estava preparada para tomar um rumo t\u00e3o importante e dif\u00edcil e, assim, boicotei inconscientemente a segunda fase da Fuvest. N\u00e3o deu USP, claro, mas entrei em 13\u00ba lugar na PUC!<\/p>\n<p>Minha fam\u00edlia era parte de uma classe m\u00e9dia que sobreviveu a muitas crises financeiras, mas sofreu grandes perdas de poder aquisitivo ao longo delas. Embora viv\u00eassemos sempre de \u201ccinto apertado\u201d, meu pai nunca deixou de pagar uma escola particular para mim e minha irm\u00e3 na expectativa que um dia pud\u00e9ssemos estudar em uma boa universidade p\u00fablica. Assim, embora tivesse entrado na PUC, meu pai disse que n\u00e3o iria pagar faculdade depois de tantos anos pagando um col\u00e9gio privado. Eu teria a liberdade de escolha de carreira, mas n\u00e3o de universidade. Embora tenha sofrido com isso e sentido que essa era uma injusta puni\u00e7\u00e3o pelo meu primeiro fracasso, hoje reconhe\u00e7o que a decis\u00e3o do meu pai foi a mais s\u00e1bia e transformou meu futuro num momento de bifurca\u00e7\u00e3o existencial importante.<\/p>\n<p>Assim, ser parte da USP era a \u00fanica forma de conseguir realizar meus sonhos. A USP deveria ser o alvo desses sonhos, custasse o que custasse. Um ano de cursinho, estudando todos os dias, incluindo finais de semanas e feriados, era a minha \u00fanica forma de realizar esse sonho. Mas, ao longo desse ano, descobri outra carreira que me atraiu: a Meteorologia. Em 1981, a Meteorologia tinha 20 vagas e o vestibular era vinculado \u00e0 F\u00edsica, Matem\u00e1tica e todas as Engenharias. Assim, para ser classificado para Meteorologia, o estudante teria que competir com muitos outros estudantes bem preparados para as ci\u00eancias exatas.<\/p>\n<p>A Fuvest de 1981 foi o evento mais estressante da minha vida. Honestamente, pensei que n\u00e3o iria ter condi\u00e7\u00f5es emocionais para terminar a segunda fase. O exame de matem\u00e1tica foi o mais dif\u00edcil, pois tinha que tirar o m\u00ednimo de 3.0. Entrei chorando e sa\u00ed chorando, e mesmo assim tirei 3.2\u2026 Mas meu interesse nas humanidades fez a diferen\u00e7a e consegui ser bem classificada entre todos os engenheiros, pois escrevia bem e me interessava por disciplinas de humanas. A alegria de ver meu nome em um jornal (sim, era assim que sab\u00edamos se hav\u00edamos passado) exatamente como imaginei que aconteceria, foi uma das maiores emo\u00e7\u00f5es da minha vida, se n\u00e3o for a maior delas.<\/p>\n<p>Entrar na Universidade nos anos 1980 foi uma experi\u00eancia interessante e, obviamente, muito diferente do que \u00e9 hoje. A Universidade p\u00f3s ditadura tinha um compromisso com a democracia, e estudantes estavam exercendo seu poder e aprendendo com ele. Havia instabilidades pol\u00edticas e um desejo enorme de fazer parte desses movimentos. Al\u00e9m disso, cont\u00e1vamos uns com os outros, pois n\u00e3o havia muito apoio did\u00e1tico, infraestrutura e tecnologia que nos ajudasse na nossa forma\u00e7\u00e3o como existe hoje.<\/p>\n<p>Em meu plano inicial, eu faria os 4 anos de Meteorologia e depois uma p\u00f3s em Astronomia. Contudo, a Meteorologia me encantou de uma forma que jamais imaginei. Estudar o oceano em que vivo, conseguir entender os fen\u00f4menos que me assustam e me fascinam se tornou mais que uma paix\u00e3o, se tornou uma obsess\u00e3o. Terminei a faculdade em 5 anos por conta de um emprego, mas sem repetir uma disciplina sequer. A Astronomia se tornou meu passatempo, mas a Meteorologia era meu lar. Terminei a gradua\u00e7\u00e3o com notas altas e consegui um est\u00e1gio e um emprego na ent\u00e3o Funda\u00e7\u00e3o Centro Tecnol\u00f3gico de Hidr\u00e1ulica (FCTH) como meteorologista, a qual tamb\u00e9m era sediada no campus da USP.<\/p>\n<p>O Departamento de Meteorologia havia sido criado h\u00e1 apenas algumas d\u00e9cadas e havia poucos professores com doutorado, mas com muita aula para dar. Assim, existia uma necessidade enorme de contratar novos talentos que pudessem ajudar no ensino, mas que tivessem potencial para crescer academicamente. A USP da \u00e9poca investia em jovens talentos, pois era a \u00fanica forma de atrair boas cabe\u00e7as com sal\u00e1rios pouco atraentes. Assim, o ent\u00e3o jovem departamento abriu uma vaga em Climatologia para a posi\u00e7\u00e3o de \u201cauxiliar de ensino\u201d(n\u00e3o requeria ter diploma de mestrado ou doutorado). Apliquei para a posi\u00e7\u00e3o sem hesitar um minuto. Era uma oportunidade de crescer na carreira e fazer um doutorado ao mesmo tempo, lecionar (o que eu sempre adorei) na Universidade que j\u00e1 era meu lar, que outro sonho eu poderia imaginar? Meu talento: estudar muito. Minha experi\u00eancia: alguns anos como professora de F\u00edsica do ensino m\u00e9dio do Col\u00e9gio Objetivo.<\/p>\n<p>Fiz o teste de sele\u00e7\u00e3o feito pelos professores da \u00e9poca e fui aprovada, praticamente um ano ap\u00f3s terminar a gradua\u00e7\u00e3o. Minha obriga\u00e7\u00e3o era dar aulas e terminar meu doutorado. Embora muitos colegas tenham optado por fazer o mestrado e doutorado no exterior, minha resolu\u00e7\u00e3o foi faz\u00ea-los na USP. Eram tempos dif\u00edceis, de muita crise politica e financeira no Pa\u00eds. Pouqu\u00edssima verba para a ci\u00eancia e a educa\u00e7\u00e3o, e a tecnologia era para l\u00e1 de obsoleta, mesmo para a \u00e9poca. Mas o jovem departamento tinha professores com uma vis\u00e3o otimista, e os obst\u00e1culos foram, um a um, superados com criatividade. Aprender era imaginar as coisas na nossa cabe\u00e7a, literalmente. Por exemplo, os mapas sin\u00f3ticos com anima\u00e7\u00f5es coloridas de vari\u00e1veis meteorol\u00f3gicas que visualizamos hoje com aplicativos em computadores e mesmo nos nossos celulares, eram analisados com impress\u00f5es em papel apenas com n\u00fameros que eram colocadas na parede, uma ao lado da outra. As \u201canima\u00e7\u00f5es\u201d eram feitas no nosso c\u00e9rebro ap\u00f3s juntarmos uma informa\u00e7\u00e3o na outra e conseguirmos dar sentido \u00e0s equa\u00e7\u00f5es progn\u00f3sticas que hav\u00edamos estudamos nos cursos. E aprend\u00edamos muito, como se constru\u00edssemos um quebra-cabe\u00e7a. Era um aprendizado diferente, mas que criou s\u00f3lidas estruturas que se mant\u00e9m at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p>Quatro anos para terminar um mestrado, um ano para pensar no doutorado e 4 anos para terminar o doutorado (que conclui em 1998) formaram uma carreira a qual eu tenho muito orgulho. Em 2000, fui contratada como Professor Assistente e s\u00f3 sa\u00ed da USP no meu p\u00f3s-doutorado entre 2000 e 2001, o qual fiz na Universidade da Calif\u00f3rnia, Santa Barbara. Entre 2002-2009, orientei 7 estudantes (5 mestrados e 6 doutorados), todos hoje bem empregados, 6 no campo da Meteorologia.<\/p>\n<p>Meu relacionamento com a USP, embora longo, teve uma bifurca\u00e7\u00e3o um tanto inesperada. Em 2008, recebi uma oferta para integrar o corpo docente do departamento de Geografia da Universidade da Calif\u00f3rnia, Santa Barbara, assumindo a \u00e1rea de Climatologia. Por motivos pessoais, mas com uma enorme press\u00e3o no cora\u00e7\u00e3o como se rompesse uma rela\u00e7\u00e3o de longo termo com uma pessoa querida, aceitei a oferta e me demiti da USP. Desde 2009 integro o grupo de professores dessa universidade.<\/p>\n<p>Hoje, sou Professora Titular e continuo com a minha pesquisa em Meteorologia, lecionando, orientando e fazendo pesquisa. Sinto um orgulho enorme em dizer que sou a \u00fanica professora do departamento com forma\u00e7\u00e3o acad\u00eamica obtida inteiramente fora dos Estados Unidos na melhor universidade da Am\u00e9rica Latina, qual est\u00e1 entre as melhores do mundo. Minha paix\u00e3o pela Meteorologia continua a inspirar minha carreira e literalmente contagiar muitos dos meus alunos. Minha hist\u00f3ria com a USP nunca terminar\u00e1 porque ela escreveu os melhores cap\u00edtulos da minha vida, os quais contribu\u00edram para minha forma\u00e7\u00e3o pessoal e profissional e que ser\u00e3o sempre contados com grande gratid\u00e3o e eternas saudades.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Leila Maria Vespoli de Carvalho, egressa da Instituto de Astronomia, Geof\u00edsica e Ci\u00eancias Atmosf\u00e9ricas (IAG) da USPProfessor Melfi, Gilberto Smith, Charles Jones (atr\u00e1s de mim, que, por sinal, \u00e9 meu marido hoje), Andrea Hahmann e Leslie Molnary \u2013 Foto: Arquivo PessoalMinha hist\u00f3ria com a USP come\u00e7ou aos 9 anos quando nos mudamos do bairro da Pompeia para o ent\u00e3o Jardim Previd\u00eancia, em S\u00e3o Paulo. Da janela da sala da nova casa, era poss\u00edvel ver alguns pr\u00e9dios da USP no horizonte ao longe. Naquela \u00e9poca, eu desenvolvi uma grande paix\u00e3o por Astronomia. Eu ganhei um pequeno telesc\u00f3pio com o qual me divertia vendo planetas durante a noite e os pr\u00e9dios da USP durante o dia. Minha m\u00e3e tamb\u00e9m gostava de contempl\u00e1-los comigo, e nunca perdia a oportunidade de dizer: \u201cLeila, \u00e9 l\u00e1 que voc\u00ea vai estudar\u201d. Tornar-me uma aluna da USP foi uma ideia que me acompanhou como um sonho a tiracolo por todos os anos de col\u00e9gio.Minha primeira Fuvest marcou meu 18\u00ba anivers\u00e1rio. Como n\u00e3o havia curso de gradua\u00e7\u00e3o em Astronomia na \u00e9poca, a F\u00edsica dominou todas as minhas op\u00e7\u00f5es. A ideia era fazer F\u00edsica e depois uma p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Astronomia\/Astrof\u00edsica. Contudo, como todo bom adolescente, estava bem confusa sobre meu futuro. O sonho de inf\u00e2ncia de ser uma astr\u00f4noma, descobrir planetas e buracos negros e um dia revolucionar a Astrof\u00edsica ainda me acompanhava como uma velha promessa a ser cumprida. Por\u00e9m, como muitos jovens da \u00e9poca, sentia uma comich\u00e3o interior t\u00edpica de uma gera\u00e7\u00e3o que experimentava democracia pela primeira vez, e que sentia a miss\u00e3o de garantir estabilidade pol\u00edtica e justi\u00e7a social.Na minha cabe\u00e7a, intelectualmente essa miss\u00e3o s\u00f3 poderia ser cumprida por algu\u00e9m que se dedicasse \u00e0s \u201chumanidades\u201d. Conflito pessoal e de valores. Prestei vestibular para a F\u00edsica na USP e Ci\u00eancias Socias na PUC. Mas a USP \u201csabia\u201d que n\u00e3o era o meu tempo e que todo aquele namoro \u00e0 dist\u00e2ncia necessitava amadurecer antes de se tornar um matrim\u00f4nio. N\u00e3o estava preparada para tomar um rumo t\u00e3o importante e dif\u00edcil e, assim, boicotei inconscientemente a segunda fase da Fuvest. N\u00e3o deu USP, claro, mas entrei em 13\u00ba lugar na PUC!Minha fam\u00edlia era parte de uma classe m\u00e9dia que sobreviveu a muitas crises financeiras, mas sofreu grandes perdas de poder aquisitivo ao longo delas. Embora viv\u00eassemos sempre de \u201ccinto apertado\u201d, meu pai nunca deixou de pagar uma escola particular para mim e minha irm\u00e3 na expectativa que um dia pud\u00e9ssemos estudar em uma boa universidade p\u00fablica. Assim, embora tivesse entrado na PUC, meu pai disse que n\u00e3o iria pagar faculdade depois de tantos anos pagando um col\u00e9gio privado. Eu teria a liberdade de escolha de carreira, mas n\u00e3o de universidade. Embora tenha sofrido com isso e sentido que essa era uma injusta puni\u00e7\u00e3o pelo meu primeiro fracasso, hoje reconhe\u00e7o que a decis\u00e3o do meu pai foi a mais s\u00e1bia e transformou meu futuro num momento de bifurca\u00e7\u00e3o existencial importante.Assim, ser parte da USP era a \u00fanica forma de conseguir realizar meus sonhos. A USP deveria ser o alvo desses sonhos, custasse o que custasse. Um ano de cursinho, estudando todos os dias, incluindo finais de semanas e feriados, era a minha \u00fanica forma de realizar esse sonho. Mas, ao longo desse ano, descobri outra carreira que me atraiu: a Meteorologia. Em 1981, a Meteorologia tinha 20 vagas e o vestibular era vinculado \u00e0 F\u00edsica, Matem\u00e1tica e todas as Engenharias. Assim, para ser classificado para Meteorologia, o estudante teria que competir com muitos outros estudantes bem preparados para as ci\u00eancias exatas.A Fuvest de 1981 foi o evento mais estressante da minha vida. Honestamente, pensei que n\u00e3o iria ter condi\u00e7\u00f5es emocionais para terminar a segunda fase. O exame de matem\u00e1tica foi o mais dif\u00edcil, pois tinha que tirar o m\u00ednimo de 3.0. Entrei chorando e sa\u00ed chorando, e mesmo assim tirei 3.2\u2026 Mas meu interesse nas humanidades fez a diferen\u00e7a e consegui ser bem classificada entre todos os engenheiros, pois escrevia bem e me interessava por disciplinas de humanas. A alegria de ver meu nome em um jornal (sim, era assim que sab\u00edamos se hav\u00edamos passado) exatamente como imaginei que aconteceria, foi uma das maiores emo\u00e7\u00f5es da minha vida, se n\u00e3o for a maior delas.Entrar na Universidade nos anos 1980 foi uma experi\u00eancia interessante e, obviamente, muito diferente do que \u00e9 hoje. A Universidade p\u00f3s ditadura tinha um compromisso com a democracia, e estudantes estavam exercendo seu poder e aprendendo com ele. Havia instabilidades pol\u00edticas e um desejo enorme de fazer parte desses movimentos. Al\u00e9m disso, cont\u00e1vamos uns com os outros, pois n\u00e3o havia muito apoio did\u00e1tico, infraestrutura e tecnologia que nos ajudasse na nossa forma\u00e7\u00e3o como existe hoje.Em meu plano inicial, eu faria os 4 anos de Meteorologia e depois uma p\u00f3s em Astronomia. Contudo, a Meteorologia me encantou de uma forma que jamais imaginei. Estudar o oceano em que vivo, conseguir entender os fen\u00f4menos que me assustam e me fascinam se tornou mais que uma paix\u00e3o, se tornou uma obsess\u00e3o. Terminei a faculdade em 5 anos por conta de um emprego, mas sem repetir uma disciplina sequer. A Astronomia se tornou meu passatempo, mas a Meteorologia era meu lar. Terminei a gradua\u00e7\u00e3o com notas altas e consegui um est\u00e1gio e um emprego na ent\u00e3o Funda\u00e7\u00e3o Centro Tecnol\u00f3gico de Hidr\u00e1ulica (FCTH) como meteorologista, a qual tamb\u00e9m era sediada no campus da USP.O Departamento de Meteorologia havia sido criado h\u00e1 apenas algumas d\u00e9cadas e havia poucos professores com doutorado, mas com muita aula para dar. Assim, existia uma necessidade enorme de contratar novos talentos que pudessem ajudar no ensino, mas que tivessem potencial para crescer academicamente. A USP da \u00e9poca investia em jovens talentos, pois era a \u00fanica forma de atrair boas cabe\u00e7as com sal\u00e1rios pouco atraentes. Assim, o ent\u00e3o jovem departamento abriu uma vaga em Climatologia para a posi\u00e7\u00e3o de \u201cauxiliar de ensino\u201d(n\u00e3o requeria ter diploma de mestrado ou doutorado). Apliquei para a posi\u00e7\u00e3o sem hesitar um minuto. Era uma oportunidade de crescer na carreira e fazer um doutorado ao mesmo tempo, lecionar (o que eu sempre adorei) na Universidade que j\u00e1 era meu lar, que outro sonho eu poderia imaginar? Meu talento: estudar muito. Minha experi\u00eancia: alguns anos como professora de F\u00edsica do ensino m\u00e9dio do Col\u00e9gio Objetivo.Fiz o teste de sele\u00e7\u00e3o feito pelos professores da \u00e9poca e fui aprovada, praticamente um ano ap\u00f3s terminar a gradua\u00e7\u00e3o. Minha obriga\u00e7\u00e3o era dar aulas e terminar meu doutorado. Embora muitos colegas tenham optado por fazer o mestrado e doutorado no exterior, minha resolu\u00e7\u00e3o foi faz\u00ea-los na USP. Eram tempos dif\u00edceis, de muita crise politica e financeira no Pa\u00eds. Pouqu\u00edssima verba para a ci\u00eancia e a educa\u00e7\u00e3o, e a tecnologia era para l\u00e1 de obsoleta, mesmo para a \u00e9poca. Mas o jovem departamento tinha professores com uma vis\u00e3o otimista, e os obst\u00e1culos foram, um a um, superados com criatividade. Aprender era imaginar as coisas na nossa cabe\u00e7a, literalmente. Por exemplo, os mapas sin\u00f3ticos com anima\u00e7\u00f5es coloridas de vari\u00e1veis meteorol\u00f3gicas que visualizamos hoje com aplicativos em computadores e mesmo nos nossos celulares, eram analisados com impress\u00f5es em papel apenas com n\u00fameros que eram colocadas na parede, uma ao lado da outra. As \u201canima\u00e7\u00f5es\u201d eram feitas no nosso c\u00e9rebro ap\u00f3s juntarmos uma informa\u00e7\u00e3o na outra e conseguirmos dar sentido \u00e0s equa\u00e7\u00f5es progn\u00f3sticas que hav\u00edamos estudamos nos cursos. E aprend\u00edamos muito, como se constru\u00edssemos um quebra-cabe\u00e7a. Era um aprendizado diferente, mas que criou s\u00f3lidas estruturas que se mant\u00e9m at\u00e9 hoje.Quatro anos para terminar um mestrado, um ano para pensar no doutorado e 4 anos para terminar o doutorado (que conclui em 1998) formaram uma carreira a qual eu tenho muito orgulho. Em 2000, fui contratada como Professor Assistente e s\u00f3 sa\u00ed da USP no meu p\u00f3s-doutorado entre 2000 e 2001, o qual fiz na Universidade da Calif\u00f3rnia, Santa Barbara. Entre 2002-2009, orientei 7 estudantes (5 mestrados e 6 doutorados), todos hoje bem empregados, 6 no campo da Meteorologia.Meu relacionamento com a USP, embora longo, teve uma bifurca\u00e7\u00e3o um tanto inesperada. Em 2008, recebi uma oferta para integrar o corpo docente do departamento de Geografia da Universidade da Calif\u00f3rnia, Santa Barbara, assumindo a \u00e1rea de Climatologia. Por motivos pessoais, mas com uma enorme press\u00e3o no cora\u00e7\u00e3o como se rompesse uma rela\u00e7\u00e3o de longo termo com uma pessoa querida, aceitei a oferta e me demiti da USP. Desde 2009 integro o grupo de professores dessa universidade.Hoje, sou Professora Titular e continuo com a minha pesquisa em Meteorologia, lecionando, orientando e fazendo pesquisa. Sinto um orgulho enorme em dizer que sou a \u00fanica professora do departamento com forma\u00e7\u00e3o acad\u00eamica obtida inteiramente fora dos Estados Unidos na melhor universidade da Am\u00e9rica Latina, qual est\u00e1 entre as melhores do mundo. Minha paix\u00e3o pela Meteorologia continua a inspirar minha carreira e literalmente contagiar muitos dos meus alunos. Minha hist\u00f3ria com a USP nunca terminar\u00e1 porque ela escreveu os melhores cap\u00edtulos da minha vida, os quais contribu\u00edram para minha forma\u00e7\u00e3o pessoal e profissional e que ser\u00e3o sempre contados com grande gratid\u00e3o e eternas saudades.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":19483,"comment_status":"close","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[59],"tags":[],"class_list":["post-19860","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-fonte-da-educacao"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.4 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Da Metereorologia na USP para a Universidade da Calif\u00f3rnia - CGC<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/www5.usp.br\/minha-historia-com-a-usp\/da-metereorologia-na-usp-para-a-universidade-da-california\/\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Da Metereorologia na USP para a Universidade da Calif\u00f3rnia - CGC\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"Leila Maria Vespoli de Carvalho, egressa da Instituto de Astronomia, Geof\u00edsica e Ci\u00eancias Atmosf\u00e9ricas (IAG) da USPProfessor Melfi, Gilberto Smith, Charles Jones (atr\u00e1s de mim, que, por sinal, \u00e9 meu marido hoje), Andrea Hahmann e Leslie Molnary \u2013 Foto: Arquivo PessoalMinha hist\u00f3ria com a USP come\u00e7ou aos 9 anos quando nos mudamos do bairro da Pompeia para o ent\u00e3o Jardim Previd\u00eancia, em S\u00e3o Paulo. Da janela da sala da nova casa, era poss\u00edvel ver alguns pr\u00e9dios da USP no horizonte ao longe. Naquela \u00e9poca, eu desenvolvi uma grande paix\u00e3o por Astronomia. Eu ganhei um pequeno telesc\u00f3pio com o qual me divertia vendo planetas durante a noite e os pr\u00e9dios da USP durante o dia. Minha m\u00e3e tamb\u00e9m gostava de contempl\u00e1-los comigo, e nunca perdia a oportunidade de dizer: \u201cLeila, \u00e9 l\u00e1 que voc\u00ea vai estudar\u201d. Tornar-me uma aluna da USP foi uma ideia que me acompanhou como um sonho a tiracolo por todos os anos de col\u00e9gio.Minha primeira Fuvest marcou meu 18\u00ba anivers\u00e1rio. Como n\u00e3o havia curso de gradua\u00e7\u00e3o em Astronomia na \u00e9poca, a F\u00edsica dominou todas as minhas op\u00e7\u00f5es. A ideia era fazer F\u00edsica e depois uma p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Astronomia\/Astrof\u00edsica. Contudo, como todo bom adolescente, estava bem confusa sobre meu futuro. O sonho de inf\u00e2ncia de ser uma astr\u00f4noma, descobrir planetas e buracos negros e um dia revolucionar a Astrof\u00edsica ainda me acompanhava como uma velha promessa a ser cumprida. Por\u00e9m, como muitos jovens da \u00e9poca, sentia uma comich\u00e3o interior t\u00edpica de uma gera\u00e7\u00e3o que experimentava democracia pela primeira vez, e que sentia a miss\u00e3o de garantir estabilidade pol\u00edtica e justi\u00e7a social.Na minha cabe\u00e7a, intelectualmente essa miss\u00e3o s\u00f3 poderia ser cumprida por algu\u00e9m que se dedicasse \u00e0s \u201chumanidades\u201d. Conflito pessoal e de valores. Prestei vestibular para a F\u00edsica na USP e Ci\u00eancias Socias na PUC. Mas a USP \u201csabia\u201d que n\u00e3o era o meu tempo e que todo aquele namoro \u00e0 dist\u00e2ncia necessitava amadurecer antes de se tornar um matrim\u00f4nio. N\u00e3o estava preparada para tomar um rumo t\u00e3o importante e dif\u00edcil e, assim, boicotei inconscientemente a segunda fase da Fuvest. N\u00e3o deu USP, claro, mas entrei em 13\u00ba lugar na PUC!Minha fam\u00edlia era parte de uma classe m\u00e9dia que sobreviveu a muitas crises financeiras, mas sofreu grandes perdas de poder aquisitivo ao longo delas. Embora viv\u00eassemos sempre de \u201ccinto apertado\u201d, meu pai nunca deixou de pagar uma escola particular para mim e minha irm\u00e3 na expectativa que um dia pud\u00e9ssemos estudar em uma boa universidade p\u00fablica. Assim, embora tivesse entrado na PUC, meu pai disse que n\u00e3o iria pagar faculdade depois de tantos anos pagando um col\u00e9gio privado. Eu teria a liberdade de escolha de carreira, mas n\u00e3o de universidade. Embora tenha sofrido com isso e sentido que essa era uma injusta puni\u00e7\u00e3o pelo meu primeiro fracasso, hoje reconhe\u00e7o que a decis\u00e3o do meu pai foi a mais s\u00e1bia e transformou meu futuro num momento de bifurca\u00e7\u00e3o existencial importante.Assim, ser parte da USP era a \u00fanica forma de conseguir realizar meus sonhos. A USP deveria ser o alvo desses sonhos, custasse o que custasse. Um ano de cursinho, estudando todos os dias, incluindo finais de semanas e feriados, era a minha \u00fanica forma de realizar esse sonho. Mas, ao longo desse ano, descobri outra carreira que me atraiu: a Meteorologia. Em 1981, a Meteorologia tinha 20 vagas e o vestibular era vinculado \u00e0 F\u00edsica, Matem\u00e1tica e todas as Engenharias. Assim, para ser classificado para Meteorologia, o estudante teria que competir com muitos outros estudantes bem preparados para as ci\u00eancias exatas.A Fuvest de 1981 foi o evento mais estressante da minha vida. Honestamente, pensei que n\u00e3o iria ter condi\u00e7\u00f5es emocionais para terminar a segunda fase. O exame de matem\u00e1tica foi o mais dif\u00edcil, pois tinha que tirar o m\u00ednimo de 3.0. Entrei chorando e sa\u00ed chorando, e mesmo assim tirei 3.2\u2026 Mas meu interesse nas humanidades fez a diferen\u00e7a e consegui ser bem classificada entre todos os engenheiros, pois escrevia bem e me interessava por disciplinas de humanas. A alegria de ver meu nome em um jornal (sim, era assim que sab\u00edamos se hav\u00edamos passado) exatamente como imaginei que aconteceria, foi uma das maiores emo\u00e7\u00f5es da minha vida, se n\u00e3o for a maior delas.Entrar na Universidade nos anos 1980 foi uma experi\u00eancia interessante e, obviamente, muito diferente do que \u00e9 hoje. A Universidade p\u00f3s ditadura tinha um compromisso com a democracia, e estudantes estavam exercendo seu poder e aprendendo com ele. Havia instabilidades pol\u00edticas e um desejo enorme de fazer parte desses movimentos. Al\u00e9m disso, cont\u00e1vamos uns com os outros, pois n\u00e3o havia muito apoio did\u00e1tico, infraestrutura e tecnologia que nos ajudasse na nossa forma\u00e7\u00e3o como existe hoje.Em meu plano inicial, eu faria os 4 anos de Meteorologia e depois uma p\u00f3s em Astronomia. Contudo, a Meteorologia me encantou de uma forma que jamais imaginei. Estudar o oceano em que vivo, conseguir entender os fen\u00f4menos que me assustam e me fascinam se tornou mais que uma paix\u00e3o, se tornou uma obsess\u00e3o. Terminei a faculdade em 5 anos por conta de um emprego, mas sem repetir uma disciplina sequer. A Astronomia se tornou meu passatempo, mas a Meteorologia era meu lar. Terminei a gradua\u00e7\u00e3o com notas altas e consegui um est\u00e1gio e um emprego na ent\u00e3o Funda\u00e7\u00e3o Centro Tecnol\u00f3gico de Hidr\u00e1ulica (FCTH) como meteorologista, a qual tamb\u00e9m era sediada no campus da USP.O Departamento de Meteorologia havia sido criado h\u00e1 apenas algumas d\u00e9cadas e havia poucos professores com doutorado, mas com muita aula para dar. Assim, existia uma necessidade enorme de contratar novos talentos que pudessem ajudar no ensino, mas que tivessem potencial para crescer academicamente. A USP da \u00e9poca investia em jovens talentos, pois era a \u00fanica forma de atrair boas cabe\u00e7as com sal\u00e1rios pouco atraentes. Assim, o ent\u00e3o jovem departamento abriu uma vaga em Climatologia para a posi\u00e7\u00e3o de \u201cauxiliar de ensino\u201d(n\u00e3o requeria ter diploma de mestrado ou doutorado). Apliquei para a posi\u00e7\u00e3o sem hesitar um minuto. Era uma oportunidade de crescer na carreira e fazer um doutorado ao mesmo tempo, lecionar (o que eu sempre adorei) na Universidade que j\u00e1 era meu lar, que outro sonho eu poderia imaginar? Meu talento: estudar muito. Minha experi\u00eancia: alguns anos como professora de F\u00edsica do ensino m\u00e9dio do Col\u00e9gio Objetivo.Fiz o teste de sele\u00e7\u00e3o feito pelos professores da \u00e9poca e fui aprovada, praticamente um ano ap\u00f3s terminar a gradua\u00e7\u00e3o. Minha obriga\u00e7\u00e3o era dar aulas e terminar meu doutorado. Embora muitos colegas tenham optado por fazer o mestrado e doutorado no exterior, minha resolu\u00e7\u00e3o foi faz\u00ea-los na USP. Eram tempos dif\u00edceis, de muita crise politica e financeira no Pa\u00eds. Pouqu\u00edssima verba para a ci\u00eancia e a educa\u00e7\u00e3o, e a tecnologia era para l\u00e1 de obsoleta, mesmo para a \u00e9poca. Mas o jovem departamento tinha professores com uma vis\u00e3o otimista, e os obst\u00e1culos foram, um a um, superados com criatividade. Aprender era imaginar as coisas na nossa cabe\u00e7a, literalmente. Por exemplo, os mapas sin\u00f3ticos com anima\u00e7\u00f5es coloridas de vari\u00e1veis meteorol\u00f3gicas que visualizamos hoje com aplicativos em computadores e mesmo nos nossos celulares, eram analisados com impress\u00f5es em papel apenas com n\u00fameros que eram colocadas na parede, uma ao lado da outra. As \u201canima\u00e7\u00f5es\u201d eram feitas no nosso c\u00e9rebro ap\u00f3s juntarmos uma informa\u00e7\u00e3o na outra e conseguirmos dar sentido \u00e0s equa\u00e7\u00f5es progn\u00f3sticas que hav\u00edamos estudamos nos cursos. E aprend\u00edamos muito, como se constru\u00edssemos um quebra-cabe\u00e7a. Era um aprendizado diferente, mas que criou s\u00f3lidas estruturas que se mant\u00e9m at\u00e9 hoje.Quatro anos para terminar um mestrado, um ano para pensar no doutorado e 4 anos para terminar o doutorado (que conclui em 1998) formaram uma carreira a qual eu tenho muito orgulho. Em 2000, fui contratada como Professor Assistente e s\u00f3 sa\u00ed da USP no meu p\u00f3s-doutorado entre 2000 e 2001, o qual fiz na Universidade da Calif\u00f3rnia, Santa Barbara. Entre 2002-2009, orientei 7 estudantes (5 mestrados e 6 doutorados), todos hoje bem empregados, 6 no campo da Meteorologia.Meu relacionamento com a USP, embora longo, teve uma bifurca\u00e7\u00e3o um tanto inesperada. Em 2008, recebi uma oferta para integrar o corpo docente do departamento de Geografia da Universidade da Calif\u00f3rnia, Santa Barbara, assumindo a \u00e1rea de Climatologia. Por motivos pessoais, mas com uma enorme press\u00e3o no cora\u00e7\u00e3o como se rompesse uma rela\u00e7\u00e3o de longo termo com uma pessoa querida, aceitei a oferta e me demiti da USP. Desde 2009 integro o grupo de professores dessa universidade.Hoje, sou Professora Titular e continuo com a minha pesquisa em Meteorologia, lecionando, orientando e fazendo pesquisa. Sinto um orgulho enorme em dizer que sou a \u00fanica professora do departamento com forma\u00e7\u00e3o acad\u00eamica obtida inteiramente fora dos Estados Unidos na melhor universidade da Am\u00e9rica Latina, qual est\u00e1 entre as melhores do mundo. Minha paix\u00e3o pela Meteorologia continua a inspirar minha carreira e literalmente contagiar muitos dos meus alunos. Minha hist\u00f3ria com a USP nunca terminar\u00e1 porque ela escreveu os melhores cap\u00edtulos da minha vida, os quais contribu\u00edram para minha forma\u00e7\u00e3o pessoal e profissional e que ser\u00e3o sempre contados com grande gratid\u00e3o e eternas saudades.\" \/>\n<meta property=\"og:url\" content=\"https:\/\/www5.usp.br\/minha-historia-com-a-usp\/da-metereorologia-na-usp-para-a-universidade-da-california\/\" \/>\n<meta property=\"og:site_name\" content=\"CGC\" \/>\n<meta property=\"article:publisher\" content=\"https:\/\/www.facebook.com\/cgceducacao\/?locale=pt_BR\" \/>\n<meta property=\"article:author\" content=\"https:\/\/www.facebook.com\/cgceducacao\" \/>\n<meta property=\"article:published_time\" content=\"2024-07-01T18:05:13+00:00\" \/>\n<meta property=\"article:modified_time\" content=\"2024-07-01T18:41:23+00:00\" \/>\n<meta property=\"og:image\" content=\"https:\/\/cgceducacao.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/chapeu_usp-90anos_campi-Pb.jpg\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:width\" content=\"1200\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:height\" content=\"100\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:type\" content=\"image\/jpeg\" \/>\n<meta name=\"author\" content=\"cgceducacao\" \/>\n<meta name=\"twitter:card\" content=\"summary_large_image\" \/>\n<meta name=\"twitter:creator\" content=\"@https:\/\/twitter.com\/cgceducacao\" \/>\n<meta name=\"twitter:site\" content=\"@cgceducacao\" \/>\n<meta name=\"twitter:label1\" content=\"Escrito por\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data1\" content=\"cgceducacao\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:label2\" content=\"Est. tempo de leitura\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data2\" content=\"8 minutos\" \/>\n<script type=\"application\/ld+json\" class=\"yoast-schema-graph\">{\"@context\":\"https:\\\/\\\/schema.org\",\"@graph\":[{\"@type\":\"Article\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/www5.usp.br\\\/minha-historia-com-a-usp\\\/da-metereorologia-na-usp-para-a-universidade-da-california\\\/#article\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/cgceducacao.com.br\\\/index.php\\\/2024\\\/07\\\/01\\\/da-metereorologia-na-usp-para-a-universidade-da-california\\\/\"},\"author\":{\"name\":\"cgceducacao\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/cgceducacao.com.br\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/253bcacdd19ebc1e3b905c209b34d968\"},\"headline\":\"Da Metereorologia na USP para a Universidade da Calif\u00f3rnia\",\"datePublished\":\"2024-07-01T18:05:13+00:00\",\"dateModified\":\"2024-07-01T18:41:23+00:00\",\"mainEntityOfPage\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/cgceducacao.com.br\\\/index.php\\\/2024\\\/07\\\/01\\\/da-metereorologia-na-usp-para-a-universidade-da-california\\\/\"},\"wordCount\":1634,\"publisher\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/cgceducacao.com.br\\\/#organization\"},\"image\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/www5.usp.br\\\/minha-historia-com-a-usp\\\/da-metereorologia-na-usp-para-a-universidade-da-california\\\/#primaryimage\"},\"thumbnailUrl\":\"https:\\\/\\\/cgceducacao.com.br\\\/wp-content\\\/uploads\\\/2024\\\/05\\\/chapeu_usp-90anos_campi-Pb.jpg\",\"articleSection\":[\"Fonte da Educa\u00e7\u00e3o\"],\"inLanguage\":\"pt-BR\"},{\"@type\":\"WebPage\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/cgceducacao.com.br\\\/index.php\\\/2024\\\/07\\\/01\\\/da-metereorologia-na-usp-para-a-universidade-da-california\\\/\",\"url\":\"https:\\\/\\\/www5.usp.br\\\/minha-historia-com-a-usp\\\/da-metereorologia-na-usp-para-a-universidade-da-california\\\/\",\"name\":\"Da Metereorologia na USP para a Universidade da Calif\u00f3rnia - 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Da janela da sala da nova casa, era poss\u00edvel ver alguns pr\u00e9dios da USP no horizonte ao longe. Naquela \u00e9poca, eu desenvolvi uma grande paix\u00e3o por Astronomia. Eu ganhei um pequeno telesc\u00f3pio com o qual me divertia vendo planetas durante a noite e os pr\u00e9dios da USP durante o dia. Minha m\u00e3e tamb\u00e9m gostava de contempl\u00e1-los comigo, e nunca perdia a oportunidade de dizer: \u201cLeila, \u00e9 l\u00e1 que voc\u00ea vai estudar\u201d. Tornar-me uma aluna da USP foi uma ideia que me acompanhou como um sonho a tiracolo por todos os anos de col\u00e9gio.Minha primeira Fuvest marcou meu 18\u00ba anivers\u00e1rio. Como n\u00e3o havia curso de gradua\u00e7\u00e3o em Astronomia na \u00e9poca, a F\u00edsica dominou todas as minhas op\u00e7\u00f5es. A ideia era fazer F\u00edsica e depois uma p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Astronomia\/Astrof\u00edsica. Contudo, como todo bom adolescente, estava bem confusa sobre meu futuro. O sonho de inf\u00e2ncia de ser uma astr\u00f4noma, descobrir planetas e buracos negros e um dia revolucionar a Astrof\u00edsica ainda me acompanhava como uma velha promessa a ser cumprida. Por\u00e9m, como muitos jovens da \u00e9poca, sentia uma comich\u00e3o interior t\u00edpica de uma gera\u00e7\u00e3o que experimentava democracia pela primeira vez, e que sentia a miss\u00e3o de garantir estabilidade pol\u00edtica e justi\u00e7a social.Na minha cabe\u00e7a, intelectualmente essa miss\u00e3o s\u00f3 poderia ser cumprida por algu\u00e9m que se dedicasse \u00e0s \u201chumanidades\u201d. Conflito pessoal e de valores. Prestei vestibular para a F\u00edsica na USP e Ci\u00eancias Socias na PUC. Mas a USP \u201csabia\u201d que n\u00e3o era o meu tempo e que todo aquele namoro \u00e0 dist\u00e2ncia necessitava amadurecer antes de se tornar um matrim\u00f4nio. N\u00e3o estava preparada para tomar um rumo t\u00e3o importante e dif\u00edcil e, assim, boicotei inconscientemente a segunda fase da Fuvest. N\u00e3o deu USP, claro, mas entrei em 13\u00ba lugar na PUC!Minha fam\u00edlia era parte de uma classe m\u00e9dia que sobreviveu a muitas crises financeiras, mas sofreu grandes perdas de poder aquisitivo ao longo delas. Embora viv\u00eassemos sempre de \u201ccinto apertado\u201d, meu pai nunca deixou de pagar uma escola particular para mim e minha irm\u00e3 na expectativa que um dia pud\u00e9ssemos estudar em uma boa universidade p\u00fablica. Assim, embora tivesse entrado na PUC, meu pai disse que n\u00e3o iria pagar faculdade depois de tantos anos pagando um col\u00e9gio privado. Eu teria a liberdade de escolha de carreira, mas n\u00e3o de universidade. Embora tenha sofrido com isso e sentido que essa era uma injusta puni\u00e7\u00e3o pelo meu primeiro fracasso, hoje reconhe\u00e7o que a decis\u00e3o do meu pai foi a mais s\u00e1bia e transformou meu futuro num momento de bifurca\u00e7\u00e3o existencial importante.Assim, ser parte da USP era a \u00fanica forma de conseguir realizar meus sonhos. A USP deveria ser o alvo desses sonhos, custasse o que custasse. Um ano de cursinho, estudando todos os dias, incluindo finais de semanas e feriados, era a minha \u00fanica forma de realizar esse sonho. Mas, ao longo desse ano, descobri outra carreira que me atraiu: a Meteorologia. Em 1981, a Meteorologia tinha 20 vagas e o vestibular era vinculado \u00e0 F\u00edsica, Matem\u00e1tica e todas as Engenharias. Assim, para ser classificado para Meteorologia, o estudante teria que competir com muitos outros estudantes bem preparados para as ci\u00eancias exatas.A Fuvest de 1981 foi o evento mais estressante da minha vida. Honestamente, pensei que n\u00e3o iria ter condi\u00e7\u00f5es emocionais para terminar a segunda fase. O exame de matem\u00e1tica foi o mais dif\u00edcil, pois tinha que tirar o m\u00ednimo de 3.0. Entrei chorando e sa\u00ed chorando, e mesmo assim tirei 3.2\u2026 Mas meu interesse nas humanidades fez a diferen\u00e7a e consegui ser bem classificada entre todos os engenheiros, pois escrevia bem e me interessava por disciplinas de humanas. A alegria de ver meu nome em um jornal (sim, era assim que sab\u00edamos se hav\u00edamos passado) exatamente como imaginei que aconteceria, foi uma das maiores emo\u00e7\u00f5es da minha vida, se n\u00e3o for a maior delas.Entrar na Universidade nos anos 1980 foi uma experi\u00eancia interessante e, obviamente, muito diferente do que \u00e9 hoje. A Universidade p\u00f3s ditadura tinha um compromisso com a democracia, e estudantes estavam exercendo seu poder e aprendendo com ele. Havia instabilidades pol\u00edticas e um desejo enorme de fazer parte desses movimentos. Al\u00e9m disso, cont\u00e1vamos uns com os outros, pois n\u00e3o havia muito apoio did\u00e1tico, infraestrutura e tecnologia que nos ajudasse na nossa forma\u00e7\u00e3o como existe hoje.Em meu plano inicial, eu faria os 4 anos de Meteorologia e depois uma p\u00f3s em Astronomia. Contudo, a Meteorologia me encantou de uma forma que jamais imaginei. Estudar o oceano em que vivo, conseguir entender os fen\u00f4menos que me assustam e me fascinam se tornou mais que uma paix\u00e3o, se tornou uma obsess\u00e3o. Terminei a faculdade em 5 anos por conta de um emprego, mas sem repetir uma disciplina sequer. A Astronomia se tornou meu passatempo, mas a Meteorologia era meu lar. Terminei a gradua\u00e7\u00e3o com notas altas e consegui um est\u00e1gio e um emprego na ent\u00e3o Funda\u00e7\u00e3o Centro Tecnol\u00f3gico de Hidr\u00e1ulica (FCTH) como meteorologista, a qual tamb\u00e9m era sediada no campus da USP.O Departamento de Meteorologia havia sido criado h\u00e1 apenas algumas d\u00e9cadas e havia poucos professores com doutorado, mas com muita aula para dar. Assim, existia uma necessidade enorme de contratar novos talentos que pudessem ajudar no ensino, mas que tivessem potencial para crescer academicamente. A USP da \u00e9poca investia em jovens talentos, pois era a \u00fanica forma de atrair boas cabe\u00e7as com sal\u00e1rios pouco atraentes. Assim, o ent\u00e3o jovem departamento abriu uma vaga em Climatologia para a posi\u00e7\u00e3o de \u201cauxiliar de ensino\u201d(n\u00e3o requeria ter diploma de mestrado ou doutorado). Apliquei para a posi\u00e7\u00e3o sem hesitar um minuto. Era uma oportunidade de crescer na carreira e fazer um doutorado ao mesmo tempo, lecionar (o que eu sempre adorei) na Universidade que j\u00e1 era meu lar, que outro sonho eu poderia imaginar? Meu talento: estudar muito. Minha experi\u00eancia: alguns anos como professora de F\u00edsica do ensino m\u00e9dio do Col\u00e9gio Objetivo.Fiz o teste de sele\u00e7\u00e3o feito pelos professores da \u00e9poca e fui aprovada, praticamente um ano ap\u00f3s terminar a gradua\u00e7\u00e3o. Minha obriga\u00e7\u00e3o era dar aulas e terminar meu doutorado. Embora muitos colegas tenham optado por fazer o mestrado e doutorado no exterior, minha resolu\u00e7\u00e3o foi faz\u00ea-los na USP. Eram tempos dif\u00edceis, de muita crise politica e financeira no Pa\u00eds. Pouqu\u00edssima verba para a ci\u00eancia e a educa\u00e7\u00e3o, e a tecnologia era para l\u00e1 de obsoleta, mesmo para a \u00e9poca. Mas o jovem departamento tinha professores com uma vis\u00e3o otimista, e os obst\u00e1culos foram, um a um, superados com criatividade. Aprender era imaginar as coisas na nossa cabe\u00e7a, literalmente. Por exemplo, os mapas sin\u00f3ticos com anima\u00e7\u00f5es coloridas de vari\u00e1veis meteorol\u00f3gicas que visualizamos hoje com aplicativos em computadores e mesmo nos nossos celulares, eram analisados com impress\u00f5es em papel apenas com n\u00fameros que eram colocadas na parede, uma ao lado da outra. As \u201canima\u00e7\u00f5es\u201d eram feitas no nosso c\u00e9rebro ap\u00f3s juntarmos uma informa\u00e7\u00e3o na outra e conseguirmos dar sentido \u00e0s equa\u00e7\u00f5es progn\u00f3sticas que hav\u00edamos estudamos nos cursos. E aprend\u00edamos muito, como se constru\u00edssemos um quebra-cabe\u00e7a. Era um aprendizado diferente, mas que criou s\u00f3lidas estruturas que se mant\u00e9m at\u00e9 hoje.Quatro anos para terminar um mestrado, um ano para pensar no doutorado e 4 anos para terminar o doutorado (que conclui em 1998) formaram uma carreira a qual eu tenho muito orgulho. Em 2000, fui contratada como Professor Assistente e s\u00f3 sa\u00ed da USP no meu p\u00f3s-doutorado entre 2000 e 2001, o qual fiz na Universidade da Calif\u00f3rnia, Santa Barbara. Entre 2002-2009, orientei 7 estudantes (5 mestrados e 6 doutorados), todos hoje bem empregados, 6 no campo da Meteorologia.Meu relacionamento com a USP, embora longo, teve uma bifurca\u00e7\u00e3o um tanto inesperada. Em 2008, recebi uma oferta para integrar o corpo docente do departamento de Geografia da Universidade da Calif\u00f3rnia, Santa Barbara, assumindo a \u00e1rea de Climatologia. Por motivos pessoais, mas com uma enorme press\u00e3o no cora\u00e7\u00e3o como se rompesse uma rela\u00e7\u00e3o de longo termo com uma pessoa querida, aceitei a oferta e me demiti da USP. Desde 2009 integro o grupo de professores dessa universidade.Hoje, sou Professora Titular e continuo com a minha pesquisa em Meteorologia, lecionando, orientando e fazendo pesquisa. Sinto um orgulho enorme em dizer que sou a \u00fanica professora do departamento com forma\u00e7\u00e3o acad\u00eamica obtida inteiramente fora dos Estados Unidos na melhor universidade da Am\u00e9rica Latina, qual est\u00e1 entre as melhores do mundo. Minha paix\u00e3o pela Meteorologia continua a inspirar minha carreira e literalmente contagiar muitos dos meus alunos. Minha hist\u00f3ria com a USP nunca terminar\u00e1 porque ela escreveu os melhores cap\u00edtulos da minha vida, os quais contribu\u00edram para minha forma\u00e7\u00e3o pessoal e profissional e que ser\u00e3o sempre contados com grande gratid\u00e3o e eternas saudades.","og_url":"https:\/\/www5.usp.br\/minha-historia-com-a-usp\/da-metereorologia-na-usp-para-a-universidade-da-california\/","og_site_name":"CGC","article_publisher":"https:\/\/www.facebook.com\/cgceducacao\/?locale=pt_BR","article_author":"https:\/\/www.facebook.com\/cgceducacao","article_published_time":"2024-07-01T18:05:13+00:00","article_modified_time":"2024-07-01T18:41:23+00:00","og_image":[{"width":1200,"height":100,"url":"https:\/\/cgceducacao.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/chapeu_usp-90anos_campi-Pb.jpg","type":"image\/jpeg"}],"author":"cgceducacao","twitter_card":"summary_large_image","twitter_creator":"@https:\/\/twitter.com\/cgceducacao","twitter_site":"@cgceducacao","twitter_misc":{"Escrito 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