Quem ensina a criança a comer? 

O consumo de alimentos ultraprocessados já representa mais de 20% das calorias ingeridas por crianças brasileiras. O dado é do IBGE, com base na Pesquisa de Orçamentos Familiares. Estudos conduzidos pela Fiocruz associam esse padrão alimentar ao aumento de obesidade infantil e a deficiências nutricionais. 

Diante desse cenário, escolas têm ampliado sua atuação na formação de hábitos alimentares desde a primeira infância. 

No Centro Educacional Pioneiro, em São Paulo, a alimentação integra o projeto pedagógico. A proposta inclui o planejamento do cardápio, a escolha de fornecedores, a organização da equipe e o acompanhamento do consumo das crianças. 

A nutricionista Cristiane Sumida, responsável pelo serviço de alimentação da escola, conduz também as ações de educação alimentar. Uma vez por mês, alunos da educação infantil participam de atividades práticas. 

Antes de cada encontro, a nutricionista se reúne com os professores para identificar desafios específicos de cada turma, como resistência a determinados alimentos ou baixa aceitação de preparações. 

Com base nesse diagnóstico, são planejadas atividades voltadas à aproximação das crianças com os alimentos. 

“O que as crianças mais gostam é o ‘mão na massa’. Elas participam do preparo, exploram texturas, cores e sabores. Isso desperta curiosidade e reduz a rejeição”, afirma. 

Em uma das atividades, a beterraba foi utilizada para produzir tinta natural. As crianças manipularam o alimento, pintaram e passaram a se aproximar do ingrediente durante a experiência. 

Segundo a nutricionista, o objetivo é construir um processo de aprendizado. “Experimentar não é necessariamente comer. É tocar, cheirar, provar aos poucos.” 

A abordagem considera que o comportamento alimentar é aprendido ao longo do tempo. O desenvolvimento depende de repetição, estímulo e convivência. 

O trabalho se estende para além das oficinas. Em turmas mais velhas, os alunos participam da construção do cardápio. A atividade inclui a apresentação dos grupos alimentares e das funções de cada alimento. 

“Quando entendem por que aquele alimento está ali, passam a se envolver mais”, diz Cristiane. 

A escola também realiza adaptações para crianças com alergias, restrições ou dificuldades alimentares. O cardápio é mantido para todos, com ajustes quando necessário. 

Outro eixo do projeto envolve as famílias. Receitas trabalhadas nas atividades são compartilhadas para incentivar a continuidade das práticas em casa. 

Sem adotar medidas restritivas, a escola atua por meio de orientação e acompanhamento. O objetivo é formar hábitos alimentares desde os primeiros anos.