Notas, curtidas e padrões de sucesso: os custos emocionais de crescer

Entre boletins, curtidas e expectativas familiares, adolescentes enfrentam exigências que extrapolam os limites. Até onde eles aguentam?

Matéria publicada no Estadão em 29/09/2025

Cobrança por desempenho escolar, expectativa de sucesso no futuro, pressão estética sobre as meninas, busca por aprovação nas redes sociais. Ser adolescente hoje significa lidar com exigências que vêm de todos os lados. Em meio a essa engrenagem de cobranças, o que está em jogo não é apenas o rendimento acadêmico, mas a saúde emocional de uma geração.

Mas por que temos exigido tanto deles? Será que desempenho “brilhante” na escola garante um posto de sucesso no mundo profissional? E que sucesso é esse? O Brasil é hoje o segundo país com maior número de adultos diagnosticados com burnout, estafa mental causada pelo trabalho. É esse mercado que queremos que nossos filhos ocupem?

“Precisamos rever a ideia de sucesso que passamos aos adolescentes”, afirma Daniel Helene, coordenador pedagógico do Ensino Fundamental 2 da Escola Vera Cruz. “Muitos crescem acreditando que só há espaço para quem se destaca em tudo, mas isso é uma ilusão perigosa. O papel da escola deveria ser ajudar a construir projetos de vida que façam sentido, e não apenas impor metas inalcançáveis.”

Pesquisas apontam a gravidade do cenário. Segundo a Fiocruz, 45% dos alunos foram diagnosticados com ansiedade generalizada no primeiro ano da pandemia, e 17% relataram sintomas de depressão. A Organização Mundial da Saúde (OMS) informa que transtornos de saúde mental respondem por 16% da carga global de doenças entre jovens de 10 a 19 anos, sendo a depressão uma das principais causas de incapacidade nessa faixa etária.

No Brasil, o Unicef calcula que quase 1 em cada 6 adolescentes vive com algum transtorno mental. Durante a pandemia, 72% disseram sentir necessidade de ajuda psicológica, mas 41% nunca recorreram a ninguém. Oito em cada dez manifestaram sentimentos negativos — como ansiedade, nervosismo ou tristeza — nos dias recentes.

As redes sociais ampliam esse peso. Um relatório global mostra que os brasileiros estão entre os que mais tempo passam online: em média, 9h13 por dia conectados. Especialistas alertam que a comparação constante, a cobrança por performance digital e a exposição excessiva aumentam o risco de frustração, insegurança e solidão.

A escola, nesse contexto, ganha papel central. Para a Secretaria da Educação do Estado de São Paulo, bons resultados acadêmicos só fazem sentido quando sustentados por um processo sólido de aprendizagem, com apoio socioemocional. Entre as ações, estão projetos interdisciplinares, avaliações contínuas e programas como o Conviva SP e o Psicólogos nas Escolas.

Na rede municipal, o NAAPA atua em situações de sofrimento psíquico com escuta qualificada e articulação com famílias. Já em escolas privadas, como o Centro Educacional Pioneiro e a Escola Vera Cruz, a aposta tem sido criar espaços de proteção e pertencimento: da ampliação da arte e do esporte a coletivos como o “Guardião das Diferenças e da Equidade”, que fortalecem a diversidade e a convivência.

Outro caminho é a educação digital crítica. “Não se trata de demonizar a internet, mas de criar espaços de reflexão sobre como ela afeta nosso olhar para nós mesmos e para o outro”, explica Helene. “A escola precisa oferecer escuta e debate contínuo, porque são nesses espaços que o adolescente entende que não está sozinho.”


As pressões de gênero também merecem atenção especial. No Pioneiro, um comitê de alunas propôs mudanças no uniforme escolar para adequá-lo ao conforto e ao respeito aos corpos femininos. E aqui é só um exemplo de como a escola pode escutar e ajustar estruturas que, muitas vezes, reforçam padrões de cobrança e invisibilizam demandas dos jovens.

O alerta, porém, vai além das instituições. Pais e mães também são parte desse circuito de exigências: o estímulo constante para notas altas, a superlotação de agendas, a expectativa de desempenho impecável em todas as frentes é uma bomba ao adolescente. Esse tipo de comportamento pode reforçar a lógica de que só há espaço para jovens “brilhantes” ou “bem-sucedidos”, e não é isso que a gente quer, certo?

Como resume Helene: “A adolescência não é apenas uma ponte para a vida adulta, mas uma etapa em si, que precisa ser vivida com dignidade. A escola não deve impor um modelo único de sucesso, mas apoiar a construção de trajetórias singulares, que deem espaço para a saúde emocional.”

Mais do que formar alunos de destaque ou influenciadores digitais, o desafio da sociedade é proteger adolescentes de uma sobrecarga que ameaça seu equilíbrio emocional. Dar espaço para que errem, experimentem, encontrem seus próprios ritmos e não sejam apenas medidos por boletins, métricas ou padrões de aparência é tarefa urgente — e coletiva. Vamos repensar como a gente anda pressionando esses jovens? Ou “para quê”.

Sugestões aos pais: como aliviar a pressão sobre os adolescentes

Pegue mais leve nas cobranças: Incentivar o esforço é saudável, mas transformar cada nota ou resultado em prova de valor pessoal só amplia a ansiedade. Reconheça também o processo, não apenas a performance.

Exija sem extrapolar: Metas são importantes, mas precisam ser realistas. Cobranças desmedidas em múltiplas áreas — escola, esporte, aparência, redes sociais — podem se tornar insustentáveis.

Proteja sem sufocar: Estar presente não significa controlar cada passo. Criar espaços de diálogo e escuta protege mais do que vigiar. O excesso de tutela mina a autonomia e a confiança.

Valorize o descanso e o ócio: Rotinas superlotadas de compromissos eliminam momentos de respiro. O ócio criativo é parte fundamental do desenvolvimento saudável.

Converse sobre redes sociais: Ajude a desenvolver uma visão crítica sobre padrões irreais e comparações digitais. Não basta proibir: é preciso dialogar sobre riscos e possibilidades.

Ofereça apoio emocional: Validar sentimentos e acolher fragilidades ajuda a reduzir o peso da solidão. Se necessário, busque apoio profissional.

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