Formar quem vai reconstruir o planeta

O novo curso técnico de Desenvolvimento de Sistemas, integrado ao ensino médio, une tecnologia, ciência e responsabilidade ambiental na formação de jovens preparados para os desafios do século 21.

Enquanto o Brasil se prepara para sediar a COP30 e o mundo discute metas de descarbonização e novas formas de viver em equilíbrio com o planeta, uma pergunta atravessa governos, empresas e escolas: quem serão os profissionais capazes de transformar tecnologia em soluções concretas para os desafios ambientais e sociais do nosso tempo?

Segundo a Associação Brasileira das Empresas de Tecnologia (Brasscom), o país precisará de mais de meio milhão de profissionais da área até 2025, mas forma menos da metade desse número. Em um mundo em que dados, sensores e softwares estão em tudo, de hospitais a elevadores, de sistemas de energia a aplicativos de transporte, a formação de jovens capazes de unir conhecimento técnico e propósito se tornou urgente.

Foi a partir dessa realidade que o Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo decidiu criar o curso técnico de Desenvolvimento de Sistemas, integrado ao ensino médio, com ênfase em inteligência artificial e automação. O objetivo é formar profissionais que compreendam o papel da tecnologia na construção de um futuro mais sustentável, em sintonia com os debates que estarão em pauta na COP30, em Belém.

“Formação técnica hoje precisa responder a problemas de cidade, energia e saúde com dados, código e protótipo”, afirma Fernando Ribeiro, coordenador do ensino técnico do Liceu. “Queremos que os alunos entendam que o trabalho com tecnologia pode ser um instrumento de transformação social e ambiental.”

Antes de ser lançado, o curso passou por um processo de pesquisa de um ano com grandes empresas de tecnologia, energia e automação. A equipe pedagógica ouviu especialistas do setor para compreender quais competências o mercado mais demanda e quais lacunas ainda existem na formação dos profissionais. “Esse curso nasceu de uma escuta com o mercado. Queríamos saber o que as empresas realmente precisam e como poderíamos preparar os jovens para atender essas necessidades”, explica Fernando. “A resposta foi clara: é preciso gente que entenda o dado, programe o sistema e enxergue o impacto daquilo no mundo real.”

O curso prepara os estudantes para desenvolver sistemas completos, da interface que o usuário vê às estruturas que fazem o programa funcionar por trás da tela, sempre orientados por ciência de dados e automação. Essa combinação permite conectar softwares a equipamentos reais, formando profissionais que unem o mundo digital ao físico. “Imagina um elevador que sabe quando está prestes a dar problema ou um sistema de iluminação que ajusta o consumo conforme o movimento no ambiente. Isso é inteligência artificial ligada à automação”, explica o coordenador. “O estudante aprenderá a desenvolver tecnologias que conversam entre si, algo que o mercado já pede e ainda tem poucos profissionais preparados.”

A formação prática é outro diferencial. Desde o primeiro ano, os alunos participarão de oficinas, palestras e projetos em parceria com empresas. A partir dos 16 anos, poderão iniciar estágios supervisionados. A ideia é que aprendam resolvendo problemas, em contato direto com o ambiente profissional. “A vida acontece no mundo físico. Por isso unimos inteligência artificial e automação para que o software converse com sensores, máquinas e pessoas”, diz Fernando.

Nos laboratórios do Liceu, os estudantes poderão desenvolver projetos ligados à eficiência energética, mobilidade urbana e saúde. São inúmeras as possibilidades de atividades, explica Fernando. Segundo ele, os alunos podem criar simulações com geradores eólicos, painéis solares e sistemas que cruzem dados de sensores de chuva com rotas seguras para motoristas e pedestres. “Aplicativos de trânsito ainda mandam o motorista para uma rua alagada porque não têm dados de chuva em tempo real. No curso, o aluno vai aprender a criar sistemas que resolvam esse tipo de situação”, conta o coordenador.

O currículo também propõe a integração entre as áreas do conhecimento. Matemática, física, química e biologia aparecerão como partes de um mesmo problema a ser resolvido. “Não faz mais sentido cursos que funcionam isolados. O mundo é interligado, e a formação precisa ser também.”

Outro aspecto importante é a inclusão da disciplina Saúde Física e Mental, voltada à construção de hábitos saudáveis de estudo e trabalho. “A gente vê muitos profissionais que passam 15 horas na frente do computador e acabam adoecendo. Ensinar o cuidado com o corpo e com a mente também faz parte da formação de quem vai trabalhar com tecnologia”, diz Fernando.

Todos os professores do curso atuam no mercado e trazem para a sala de aula a experiência da vida profissional. Muitos são ex-alunos do próprio Liceu, hoje inseridos em grandes empresas, que retornam à escola como docentes. “Aqui o aluno aprende com quem está vivenciando o que ensina. Isso encurta a distância entre a formação e o trabalho e faz toda a diferença.”

O novo curso técnico de Desenvolvimento de Sistemas do Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo terá início em 2026, com turmas nos períodos da manhã e da tarde e duração de três anos. As inscrições para o processo seletivo já estão abertas e podem ser feitas pelo site da escola. O curso oferece 70 vagas, sendo 60 gratuitas destinadas aos candidatos aprovados no processo seletivo e 10 vagas pagas. Podem se inscrever estudantes que concluíram o ensino fundamental ou que estejam cursando o 9º ano. O processo de admissão inclui prova escrita, redação e entrevista.

O Liceu, fundado em 1873, mantém tradição na formação técnica e artística de gerações de profissionais e tem hoje mais de 150 anos de história. A nova proposta se insere nesse legado, conectando a formação técnica ao propósito ambiental. “Queremos formar jovens que entendam a tecnologia como ferramenta de transformação, não como fim”, diz Fernando. “Se o mundo está discutindo o clima, nós precisamos preparar quem vai desenvolver as soluções.”

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