Da curiosidade de uma criança que observa uma flor ao jovem que interpreta dados climáticos, a escola constrói uma alfabetização que integra corpo, linguagem e responsabilidade.
À medida que o mundo se aproxima da COP30, marcada para Belém, o Brasil volta a ser centro das discussões sobre o futuro da Terra. As negociações internacionais tratarão de emissões, descarbonização e adaptação, mas a pergunta essencial segue fora das cúpulas: quem será a geração capaz de enfrentar a crise climática com conhecimento, ética e ação? Como estão sendo alfabetizadas as crianças que viverão as consequências diretas do aquecimento global?
Na Escola Vera Cruz, em São Paulo, a resposta vem de um projeto educativo que entrelaça ciência, sensibilidade e ética desde a primeira infância até o ensino médio. A escola entende que aprender sobre o clima é aprender sobre a própria condição humana. “Quando uma criança observa um fenômeno natural e formula uma pergunta, ela já está se alfabetizando climaticamente”, afirma André Reinach, assessor da área de Ciências e articulador curricular.
Para Reinach, o encantamento é o ponto de partida do conhecimento. O espanto diante da natureza alimenta a curiosidade e abre espaço para a investigação. “A ciência nasce do desejo de entender o que emociona. Uma criança que se admira diante de um ciclo natural começa a construir pensamento científico e moral. É nesse encontro que nasce o cuidado.”
Na Educação Infantil, esse olhar se concretiza no cotidiano. As crianças exploram o jardim, observam o rio que passa sob o prédio, acompanham o florescimento das árvores e cuidam das abelhas jataí que vivem na escola. “Elas aprendem desde cedo que somos natureza”, explica Fabiana Meirelles, coordenadora da etapa. “O corpo é o primeiro instrumento de investigação. A criança aprende ao tocar, sentir, cheirar e comparar.”
Cada descoberta se transforma em investigação. Ao encontrar o pátio coberto de flores de sibipiruna, as turmas não varrem o chão: param, observam e registram. Aprendem a reconhecer os ciclos da vida e da decomposição. O espaço escolar se torna laboratório de observação e de convivência com o que está vivo.
No Vera Integral, o aprendizado sensorial se desdobra em práticas diárias que envolvem responsabilidade e colaboração. As crianças cuidam de hortas e minhocários, alimentam a composteira e separam resíduos. Após o almoço, os restos de comida são pesados e discutidos coletivamente. “Quando percebem que solo, água, sol, plantas e pessoas fazem parte de um mesmo sistema, passam a agir com responsabilidade”, observa Clélia Cortez, coordenadora do programa.
Essas experiências constroem repertório ético. A partir das discussões sobre o lixo ou sobre o uso da água, as crianças decidem coletivamente como reduzir o desperdício. Clélia vê nisso o início de um pensamento sistêmico. “As crianças aprendem que o equilíbrio do ambiente depende da colaboração. Cada gesto tem consequência. É um aprendizado sobre o mundo e sobre como estar nele.”
Com o avanço da escolaridade, a alfabetização climática ganha densidade conceitual. No Ensino Fundamental, os alunos mapeiam rios invisíveis de São Paulo e investigam por que estão soterrados. Os estudos sobre povos indígenas e modos tradicionais de vida ampliam a compreensão de que existem múltiplas formas de relação com a natureza. A geodésica construída no pátio, inspirada no design ecológico de Buckminster Fuller, une geometria, física e ética ambiental: uma estrutura que gasta o mínimo de material e oferece o máximo de resistência, transformando o brincar em aprendizado sobre eficiência e sustentabilidade.
Do sexto ao nono ano, os estudos do meio se tornam experiências de campo. Os alunos analisam a história do rio Tietê, visitam parques de conservação, investigam a Ilha do Cardoso e observam locais que sofreram grandes impactos ambientais. O objetivo é compreender o território e as escolhas humanas que moldaram o ambiente.
O sétimo ano dedica parte das aulas a um projeto de enfrentamento do negacionismo científico. Os estudantes assistem a vídeos com discursos que negam a emergência climática, pesquisam dados e produzem respostas fundamentadas. Aprendem a identificar falácias, distinguir opinião de evidência e a argumentar com base em fatos. O projeto articula ciências, matemática e educação midiática.
Reinach considera essa alfabetização em dados um dos pilares da formação. “O aquecimento global só é compreensível quando se domina o raciocínio estatístico. Entender o que é média, variação, probabilidade e tendência é essencial para interpretar gráficos, distinguir coincidência de causalidade e avaliar riscos.” Desde o primeiro ano do fundamental, as crianças trabalham com tabelas, séries e gráficos. Mais tarde, analisam o famoso gráfico do “taco de hóquei”, que mostra a correlação entre a emissão de CO2 e a elevação da temperatura média global desde o século XIX.
No oitavo e nonos anos, o estudo se aprofunda em temas como doenças tropicais relacionadas ao clima, acidificação dos oceanos e aumento da frequência de eventos extremos no Brasil. No ensino médio, o trabalho se organiza em torno da compreensão dos sistemas climáticos e das relações entre ciência, economia e política. Os alunos estudam a química dos gases de efeito estufa, a física da transferência de energia e a geopolítica do clima.
A COP aparece nesse percurso como síntese. Os alunos analisam o Protocolo de Kyoto, o Acordo de Paris e as negociações atuais, entendendo o papel do Brasil e a relevância da Amazônia no contexto global. Discutem também os limites das políticas internacionais e o que está em jogo nos tratados. O objetivo é que compreendam tanto a dimensão científica quanto a social e ética do problema.
Os itinerários formativos ampliam o repertório. Em “Outros Mundos São Possíveis”, os alunos estudam documentários sobre soluções ambientais na Europa, América Latina e África e comparam diferentes visões de sustentabilidade. O documentário “Amazônia: Brasil Antes de 1500, a História Não Contada”, de Felipe Castanhari, serve de base para refletir sobre a floresta como um espaço historicamente manejado por povos indígenas. Essa leitura desmistifica a ideia de natureza intocada e mostra que é possível habitar o planeta de maneira produtiva e diversa.
A infraestrutura da escola é parte do currículo. Captação de água de chuva, horta vertical, hidroponia e energia solar fotovoltaica abastecem parte do prédio e funcionam como espaços de estudo. Os alunos analisam dados de consumo, discutem eficiência e pensam intervenções.
A cultura escolar também reflete esse compromisso. Ao final do ensino médio, as turmas participam de um ritual simbólico: plantam uma árvore e enterram cápsulas do tempo com cartas que serão abertas anos depois. O gesto traduz a ideia de continuidade e pertencimento.
Para Reinach, a alfabetização climática é antes de tudo uma formação ética. Ele defende que compreender o clima é compreender o próprio modo de estar no mundo. “A crise climática nasce da crença de que o planeta está a nosso serviço. O desafio da educação é deslocar essa lógica e reconstruir a ideia de interdependência. Cuidar do mundo é cuidar de todos os que o habitam.”
Enquanto o mundo se prepara para a COP30, as salas e os pátios do Vera Cruz mostram que a transformação começa no olhar de uma criança que pergunta, observa e age. O que se aprende ali não é apenas ciência, mas uma forma de existência mais consciente e responsável. É desse tipo de alfabetização que dependerá o futuro da Terra.