Na Escola Tarsila do Amaral, em São Paulo, as crianças aprendem desde cedo que compreender a natureza é também uma forma de cuidar do planeta. O aprendizado acontece de maneira prática e integrada às áreas do conhecimento, em projetos que conectam ciência, cultura e sustentabilidade. Da observação das minhocas na composteira ao estudo das fontes de energia e da agricultura familiar, os alunos do Ensino Fundamental desenvolvem o olhar científico e aprendem o valor das pequenas ações cotidianas.
Na turma do 2º ano da manhã, a professora Kamilla Ferreira coordena o projeto Ciência da Terra, inspirado na vida que pulsa no solo. A proposta nasceu do minhocário da escola e envolveu toda a comunidade escolar, inclusive a equipe da cozinha. “Fizemos um trabalho para entender quais alimentos poderíamos utilizar na composteira, porque nem todos são benéficos dentro daquele ambiente”, explica Kamilla.
O projeto levou as crianças a compreenderem o papel das minhocas, fungos e bactérias na decomposição da matéria orgânica e na produção do húmus, o composto que fertiliza o solo. “Entendemos que o solo é vivo e que essa vida, mesmo invisível, é fundamental para que outras existam”, diz a professora. A turma se inspirou nos estudos da agrônoma Ana Primavesi, pioneira da agroecologia no Brasil, que defendia a terra como um organismo vivo, e na liderança indígena Aty Guaraní, reconhecida por recuperar áreas degradadas da Mata Atlântica.
A observação das plantas e do entorno da escola levou as crianças a refletirem sobre a perda da Mata Atlântica, que hoje ocupa apenas 10% de sua área original. “Tudo começa na terra. É crucial entendermos o quanto ela vem diminuindo e o quanto é importante cuidarmos das áreas verdes”, afirma Kamilla.
Durante o projeto, os alunos observaram a jabuticabeira do pátio e descobriram o quanto de vida existe em torno dela. “Os frutos alimentam joaninhas, abelhas, pássaros. É impressionante o quanto de vida cabe dentro desse território”, comenta a professora. A experiência resultou em pequenas ações ambientais e no compromisso coletivo de cuidar do meio ambiente dentro e fora da escola. “Cada atitude é uma micro revolução. É o lixo que separamos, a árvore que plantamos, o cuidado que temos com a terra”, resume.
No 5º ano, a professora Nathalia Fuga trabalha para desenvolver o pensamento científico e o senso crítico das crianças. O ponto de partida foi compreender a diferença entre ciência e opinião. “Consultamos vários sites e discutimos quais eram confiáveis. Mostrei a importância de buscar fontes de universidades, revistas científicas e projetos como o Ciência Hoje Criança”, conta Nathalia. A atividade resultou em conversas sobre o cuidado com o que se compartilha. “Eles entenderam que divulgar algo confiável é também uma forma de responsabilidade com o outro”, acrescenta.
O tema se desdobrou em outras áreas. Em matemática, os alunos analisaram contas de energia elétrica e compararam os valores antes e depois da instalação de painéis solares. “Eles viram na prática como pequenas atitudes, como tirar aparelhos da tomada ou substituir lâmpadas por LED, podem reduzir o consumo”, relata Nathalia.
A discussão seguiu para as aulas de geografia, com o estudo das fontes de energia e seus impactos ambientais. A professora apresentou diferentes tipos de geração, como hidrelétrica, solar e eólica, destacando os desafios e benefícios de cada uma. Para ampliar o debate, Nathalia levou para a sala de aula a música Sobradinho, de Sá e Guarabyra, lançada em 1977. A canção conta a história da construção da barragem de Sobradinho, no rio São Francisco, que alagou cidades inteiras e obrigou milhares de famílias a deixarem suas casas. “O homem chega e já desfaz a natureza, tira gente, põe represa, diz que tudo vai mudar”, diz um dos versos. “A música nos ajuda a pensar sobre os impactos das grandes obras e sobre a importância dos estudos ambientais antes de qualquer intervenção humana”, comenta a professora.
O projeto culminou em uma reflexão sobre agricultura familiar e diversidade alimentar. A partir das pesquisas e das conversas realizadas durante a festa junina, os alunos estudaram a importância dos pequenos produtores e da produção próxima aos centros urbanos. “Discutimos como isso ajuda a garantir a segurança alimentar, reduzir desperdícios e valorizar a diversidade de alimentos”, explica Nathalia. A turma também conheceu os diferentes tipos de milho cultivados pelos povos originários da América do Sul e experimentou suco de milho preto, ampliando o repertório sobre alimentação saudável e diversidade cultural.
Os projetos conduzidos por Kamilla Ferreira e Nathalia Fuga mostram como a educação ambiental pode atravessar todas as áreas do conhecimento e formar uma geração mais consciente e participativa. Na Escola Tarsila do Amaral, cuidar da terra é também aprender sobre o futuro. Um futuro que começa agora, nas mãos das crianças que observam, questionam e cultivam novas formas de viver em equilíbrio com o planeta.