Material escolar pesa no bolso? Veja como usar bem cadernos e livros do ano passado

Pesquisa mostra que famílias veem impacto no orçamento do início do ano com listas das escolas; colégios organizam trocas de materiais, uniformes e livros para promover um consumo consciente entre os alunos

Matéria publicada no Estadão em 13/01/2026

Os gastos com material escolar costumam pesar no orçamento familiar dos brasileiros. Levantamento mostra que 88% dos que vão às compras na volta às aulas reconhecem o impacto financeiro e 84% admitem que os preços dos materiais influenciam decisões em outras áreas do orçamento familiar. Os dados são da pesquisa do Instituto Locomotiva em parceria com a QuestionPro, feita com 1.500 pessoas de todo o País.

A avaliação da lista de material escolar enviada pelas escolas divide a opinião dos entrevistados. Pouco mais da metade dos pais considera a lista adequada, enquanto 42% a avaliam como excessiva.

Diante dos altos cursos associados ao início do ano letivo, existem estratégias para economizar. Duas em cada três famílias substituem itens por versões mais baratas quando se deparam com um material escolar mais caro do que o esperado, mostra a pesquisa.

Outra opção é o reaproveitamento: oito em cada dez brasileiros reaproveitam itens do ano letivo anterior, como mochilas, estojos e cadernos parcialmente usados.

Essa é uma estratégia apoiada por muitas escolas. Na Escola Vera Cruz, em São Paulo, além de haver o incentivo para reaproveitamento do material do próprio aluno, há a “troca solidária” que nasceu por iniciativa de algumas famílias e foi adotada pela escola. A ideia é que alunos que não usam mais determinados materiais doem para aqueles que podem utilizá-los.

O projeto tem como base uma preocupação com a sustentabilidade financeira e do meio ambiente, e busca incentivar um consumo consciente, explica Jussara Ferreira, gerente administrativa da escola.

“(Queremos) trabalhar como esses alunos se relacionam com o mundo, com o consumo, com o lixo que eles produzem”, afirma. “E tem uma questão econômica também, que a escola valoriza muito, para que os pais possam usar bem o seu dinheiro”.

“É lixo mesmo? Não, não é”

As trocas de pastas, fichários e cadernos acontecem ao longo do ano por meio de grupos online e, em janeiro, a escola organiza também um espaço para receber outros materiais, como uniformes e livros didáticos.

O colégio também recebe doações das famílias de alguns materiais escolares em boas condições e oferece-os sem custo aos alunos que desejarem o material reaproveitado. Para isso, é importante que os estudantes cuidem bem do material, que poderá ser usado por outros alunos nos anos seguintes.

“Tem um ponto educacional bastante importante nesse projeto, da criança pensar no que ela produz. É lixo mesmo? Não, não é. A gente tem um trabalho de fazer a criança pensar ‘como eu gostaria de receber esse material?’ e ‘que respeito eu tenho que ter ao outro?’”, afirma Jussara.

A adesão das famílias é alta, diz a gerente administrativa, que calcula que há um reaproveitamente de quase metade do material.

Consumo consciente e responsabilidade financeira

Na Escola Lourenço Castanho, também na capital paulista, são realizadas as trocas de livros e uniformes. O colégio calcula ter recebido cerca de 5 mil livros, entre didáticos e paradidáticos.

São os alunos que escolhem os uniformes e os livros, de acordo com afinidades pessoais. “Muitos têm amigos que vão aos brechós e isso acaba sendo natural para eles. Para a escola, é importante incentivar ações de consumo consciente e redução de impacto ambiental (com a produção de novos materiais)”, diz Cristina Tempesta, diretora pedagógica do colégio.

Especialmente entre os alunos mais novos, uniformes podem ficar pequenos mesmo em bom estado. Por isso, os uniformes usados são bastante procurados pelos pais, diz a bibliotecária Iandra Paixão. “Para famílias que têm dois ou três filhos, é uma boa economia de custo”, afirma.


O reaproveitamento de materiais de um ano para outro também ajuda na formação da responsabilidade financeira e no cultivo de valores fundamentais ao ser humano, “no qual o ser se sobrepõe ao ter”, diz Cristina.

“Num mundo tão marcado por um consumo pouco reflexivo e pouco consciente, é responsabilidade da escola olhar para isso com cuidado, pensando na educação das crianças e dos jovens e transbordando isso para as famílias também”, afirma Edson D’Addio, diretor pedagógico na Lourenço Castanho, que recomenda às famílias interessadas nesse tipo de interação que organizem grupos online para as trocas dos materiais didáticos.

Para o pedagogo, é importante desestimular o desejo de sempre ter algo novo. “Eu preciso de uma mochila nova a cada ano? Eu preciso de um estojo novo? Eu não posso reaproveitar a minha caixa de canetinhas? Essas são questões que a gente trabalha dentro da escola”.

Os alunos da escola participam também do projeto DOAR, em que itens escolares em bom estado são doados para escolas estaduais e entidades que trabalham com crianças.

“Essa é uma ideia muito importante para trabalhar com as famílias e com os jovens e crianças, do cuidado que você tem que ter com o seu material. Se amanhã esse material não servir mais a você, ele pode, sim, servir a outras pessoas, se bem cuidado. Com isso, você abraça as questões ambientais, as questões de sustentabilidade, de consumo, mas você trabalha também a questão da generosidade, da solidariedade” diz D’Áddio.

Dicas para reaproveitar os materiais escolares

Antes de comprar todo o material escolar novo, as famílias devem fazer um levantamento do que sobrou do ano anterior. Lápis, canetas e outros itens de papelaria podem ser usados por vários anos.

Os cadernos parcialmente usados podem ser reaproveitados ao retirar as folhas usadas ou então como bloco para rascunho de exercícios.

Adesivos e etiquetas antigas podem ser substituídos ou colados por cima, renovando pastas e cadernos sem custo.

Já itens com marcas de uso mas que continuam com a sua função preservada, como réguas, estojos e mochilas, podem ser personalizados por meio da colagem de adesivos, patches ou bottons.

Outra dica é adiantar as compras para novembro, durante a Black Friday, em vez de esperar até janeiro, quando os preços de materiais escolares costumam aumentar. Lojas online também costumam ter valores mais acessíveis do que as lojas físicas.

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