Escolas tentam se equilibrar entre oba-oba e demonização da IA na volta às aulas

  • Ferramentas se disseminam entre alunos e professores, mas falta formação para um uso crítico, dizem especialistas
  • Educadores enfrentam desafios como cyberbullying e deepfakes com disseminação da tecnologia

Matéria publicada na Folha de SP em 31/01/2026

A inteligência artificial, que será o grande tema do novo ano letivo, criou nas escolas uma situação gato e rato: alunos usam a IA para redigir redações e trabalhos; professores usam a IA para detectar redações e trabalhos feitos por IA; alunos recorrem a uma nova ferramenta, a IA que faz textos que não se parecem com IA (“IA humanizada”, “IA antidetector de IA”)…

A pergunta na educação é: vamos atrás de uma IA capaz de detectar a “IA indetectável”, seguindo nessa disputa inglória, ou é melhor todo mundo parar para refletir sobre riscos, vantagens e um uso que seja consciente, ético e saudável?

“Estamos no momento de superar a fase da resistência e entender que é inevitável que os estudantes usem IA”, diz Cláudia Tricate, diretora do Colégio Magno, de São Paulo. “A questão é entenderem quando vale a pena usar e de que forma vão se desenvolver e ter senso crítico, até para fazer boas perguntas para a IA.”

Mãos de uma pessoa digitando em teclado de laptop. Tela exibe assistente virtual com texto em português perguntando "Em que posso ajudar?"
Em aula do 6º ano do Colégio Magno, alunos usam o ChatGPT para criar um e-book; atividade trabalha a percepção sobre as perguntas feitas para a IA; “Eu quero um livro que tenha bastante diversão e aventura e fale sobre células e como a vida surge no planeta terra; linguagem de sexto ano”, escreve aluno – Divulgaçao

De fato, as ferramentas se disseminaram entre alunos. A pesquisa TIC Educação, referência sobre o uso da tecnologia nas escolas brasileiras, mostrou que, no ensino médio, 70% usam IA para trabalhos escolares (o número deve ser maior, uma vez que a coleta de dados foi de agosto de 2024 a março de 2025).

Professor da disciplina de IA do Liceu de Artes de São Paulo, Lucas Chao conta que a escola procura definir quando a ferramenta deve ser usada e quando é proibida —modelo que tem se tornado comum. “A utilização deve acontecer apenas no que é determinado pelo professor, mas sabemos que nem sempre é assim. Quando há a proibição e constatamos o uso, o trabalho pode ter sua nota zerada”, diz. “Mas reconhecemos que a proibição não é o melhor caminho e, por isso, estamos trabalhando o ‘pensar com’ a IA e o ‘pensar sobre’ a IA.

No caso da redação, muitas escolas têm optado por pedir o texto à mão, inclusive para treinar para os principais vestibulares, ainda não digitais.

A IA é também usada na correção de redações, lembra Cláudia Tricate. “Temos que dividir com os alunos essa reflexão, a de que pode ser uma boa para corrigir, mas não para produzir. E que, sem repertório, não há nem como utilizar bem a IA.”

O uso da inteligência artificial está disseminado também entre os professores no Brasil, incluindo para a produção e correção de provas e o planejamento —53% dos docentes do país dizem utilizar as ferramentas, contra 36% dos 53 países avaliados pela Talis (Pesquisa Internacional sobre Ensino e Aprendizagem, na sigla em inglês), da OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico).

O levantamento aponta que países em que os professores menos utilizam IA, como França (13,5%) e Japão (17,4%), estão entre os com melhores desempenhos.

A OCDE, assim como outras organizações internacionais, tem recomendado cautela na adesão à inteligência artificial nas escolas. Um relatório recente ressaltou a necessidade de mais pesquisas para avaliar os impactos no aprendizado.

O documento afirma que a IA se mostra potencialmente vantajosa para auxiliar educadores no diagnóstico da evolução dos estudantes e em tutorias individualizadas, mas alertou para uma série de riscos, entre os quais destaca um “crítico”: o de prejudicar o desenvolvimento de habilidades humanas fundamentais, a compreensão dos próprios processos de cognição e de aprendizagem e a capacidade de julgamento.

Isso sem falar dos perigos ligados a dados e privacidade. E recomentou a formação de professores e alunos para um uso ético e responsável, em que a IA seja auxiliar e não substituta do olhar humano.

E esse é justamente um dos principais nós: os educadores ainda não estão plenamente capacitados para isso. A TIC Educação 2025 apontou que apenas 54% dos professores brasileiros tiveram formação continuada sobre como orientar os alunos para o uso das tecnologias digitais —neste ano, deve ser aprovada no país a obrigatoriedade do ensino de inteligência artificial nos currículos de pedagogia e dos cursos de licenciatura.

Os professores se deparam com questões complexas, entre elas, o cyberbullying. Isso se agravou com ferramentas usadas para criar imagens e vídeos pornográficos a partir de fotos de crianças e adolescentes. Há ainda o temor do uso disseminado de deepfakes, especialmente durante o período eleitoral.

O Colégio Porto Seguro, de São Paulo, tem realizado palestras sobre o assunto. “O ano passado foi de muita preocupação dos pais, com o uso para fazer redação, trabalhos, com o cyberbullying, e chamamos especialistas para falar com os alunos e as famílias”, diz Alexandre Marcondes, diretor de tecnologia e inovação.

Alessandra Buriti, coordenadora de educação digital do colégio, conta que os alunos estão fazendo trabalhos com o uso positivo da IA. “Teve um grupo, por exemplo, que levantou dados sobre suicídio para buscar padrões e propor caminhos para a prevenção.”

Os professores usam as ferramentas do próprio sistema do colégio, entre elas a de análise da performance dos estudantes, e testam outras nas classes. Entre os exemplos, está o de um docente que pediu para os alunos, no começo de todas as suas aulas, fazer um check-in no Microsoft Reflect —a ferramenta tem um quiz sobre bem-estar para analisar aspectos socioemocionais dos estudantes e propor formas de auxiliá-lo em dificuldades, como ansiedade ou desengajamento.

Um grande desafio hoje da educação é “alinhar a IA ao projeto pedagógico da escola, não só do ponto de vista instrumental —como uma ferramenta—, mas da construção do olhar crítico”, diz Juliana Caetano, coordenadora de tecnologia da educação da Escola Vera Cruz e do Instituto Vera Cruz, que forma professores, em São Paulo. “A IA não pode ser demonizada nem vista com fetichismo. Precisamos ocupar o caminho do meio, colocando a IA em favor da inteligência humana, e não o contrário.”

“Mesmo na educação infantil, essas ferramentas podem ser apresentadas de forma a problematizar sobre o uso”, diz. Ela dá um exemplo: “Em uma roda de conversa, os alunos inventam um herói. Depois, com as características apontadas por eles, pede-se para a IA trazer uma imagem do herói. Diante do resultado, um caminho é o de reafirmar o encantamento: ‘Nossa, que incrível o que a IA fez’. Outro é: ‘Será que foi a IA que fez, ou ela partiu do que nós pedimos? E, se pedirmos coisas ruins, ela também vai fazer? A ação está na mão de quem?’”.

Estação de coleta seletiva com três compartimentos transparentes para orgânicos, recicláveis e rejeitos, contendo frutas, garrafas plásticas e lixo comum. Acima, cartazes informativos fixados em painel de madeira.

Projeto de alunos do Colégio Magno usa a IA para escanear objetos e aponta em qual das lixeiras ele deve ser descartado – Divulgaçao

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