Ondas de calor prolongadas, enchentes que voltam a atingir cidades brasileiras e secas que pressionam reservatórios recolocaram a crise climática no centro do debate público. Nos últimos dias, o governo federal voltou a discutir medidas de adaptação e redução de emissões dentro do Plano Clima, estratégia nacional que orienta as políticas do país para enfrentar os impactos do aquecimento global nas próximas décadas. A discussão ganhou força desde a COP30 realizada em Belém em 2025, quando o Brasil esteve no centro das negociações internacionais sobre clima. O debate costuma se concentrar em energia, infraestrutura e financiamento internacional. Uma pergunta decisiva começa a aparecer em outro campo: como formar crianças e jovens capazes de compreender um planeta ambientalmente mais instável.
Em algumas escolas brasileiras, essa formação já aparece como parte do cotidiano pedagógico. Educadores têm usado a expressão alfabetização climática para descrever um percurso que acompanha os alunos desde os primeiros anos de escola até o ensino médio. A ideia envolve observar fenômenos naturais, compreender ciclos ecológicos, interpretar dados científicos e discutir as consequências das escolhas humanas sobre o território.
Na Escola Vera Cruz, em São Paulo, o contato com os sistemas naturais começa na educação infantil. As crianças exploram o jardim da escola, observam o florescimento das árvores e acompanham o comportamento de abelhas jataí instaladas no pátio. O espaço externo funciona como ambiente de investigação.
Fabiana Ribeiro, coordenadora da Educação Infantil, afirma que a experiência direta com a natureza inaugura o processo de aprendizagem científica. “O corpo é o primeiro instrumento de investigação. A criança aprende ao observar, tocar e comparar o que encontra ao redor.”
Com o avanço da escolaridade, essas observações se transformam em estudos mais estruturados. No ensino fundamental, os alunos investigam rios soterrados da cidade de São Paulo e analisam como processos históricos de urbanização alteraram cursos de água e áreas naturais.
No Colégio Equipe, também em São Paulo, a alfabetização climática aparece nos primeiros anos do ensino fundamental por meio de experiências científicas. Na terceira série, a professora Maria Lucia Rodrigues de Souza conduz um projeto multidisciplinar que reúne ciências, geografia, matemática, artes e literatura.
As crianças constroem um terrário fechado para observar o ciclo da água e o funcionamento de um ecossistema. A temperatura é registrada diariamente e os dados são organizados em tabelas e gráficos.
“O terrário permite visualizar como os elementos de um ecossistema estão conectados. As crianças observam mudanças e registram o que acontece”, afirma a professora.
O projeto inclui também estudos sobre conhecimentos ambientais de povos indígenas e sua relação histórica com a floresta amazônica. Para a diretora Luciana Fevorini, a educação climática integra a concepção pedagógica da escola. “As crianças aprendem a observar o mundo, formular perguntas e compreender as relações entre ciência, sociedade e natureza.”
Na Escola Villare, em São Caetano do Sul, a alfabetização climática também aparece já nos primeiros anos do ensino fundamental. No 5º ano, um projeto inspirado nas discussões da conferência do clima e nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável levou os alunos a imaginar soluções ambientais concretas.
Orientados pela professora Janaina Katinska, os estudantes criaram o chamado Ecoparque de Diversões, um parque planejado para funcionar com o menor impacto ambiental possível. A atividade envolveu discussões sobre consumo responsável, preservação de áreas verdes e uso racional de recursos naturais.
“O desafio era pensar como reduzir o impacto de uma grande construção como um parque de diversões”, explica Janaina. “As crianças discutiram alternativas como captação de energia solar e eólica, reaproveitamento de água e uso de materiais recicláveis.”
O trabalho conversa com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável relacionados ao consumo responsável e à ação climática. Para a professora, a proposta aproxima o debate global da realidade das crianças.
As discussões em sala de aula foram ampliadas em uma visita ao parque Resgate da Infância, onde os alunos observaram práticas de sustentabilidade em funcionamento, como o uso de água de reúso e a preservação da vegetação original.
No Colégio Magno, em São Paulo, a reflexão ambiental aparece associada ao ciclo dos materiais e ao consumo. O espaço Remida reúne sobras industriais, embalagens e objetos descartados que são incorporados às atividades pedagógicas.
Os alunos utilizam esses materiais em projetos de criação e investigação. A prática aproxima a discussão ambiental do cotidiano e ajuda a compreender o percurso dos objetos desde a produção até o descarte. Ao lidar com resíduos e reaproveitamento, os estudantes passam a perceber que escolhas de consumo têm impacto direto no ambiente.
No Centro Educacional Pioneiro, também na capital paulista, projetos de ciências aproximam os estudantes das relações entre natureza, alimentação e território. Alunos investigam temas como biomas brasileiros, produção de alimentos e impactos ambientais associados a diferentes sistemas agrícolas.
Thaís Ogeda, coordenadora da área de Ciências da Natureza da escola, afirma que a proposta é mostrar como fenômenos ambientais fazem parte da vida cotidiana. “Quando os alunos investigam de onde vêm os alimentos ou analisam o funcionamento de um bioma, começam a perceber que clima, biodiversidade e produção humana fazem parte do mesmo sistema.”
Em etapas mais avançadas da educação básica, a alfabetização climática passa a envolver investigação científica e análise de dados ambientais. Na Escola Villare, alunos do ensino médio participam de atividades de bioquímica voltadas à análise da qualidade das águas urbanas.
O trabalho inclui coleta de amostras, medições de parâmetros como pH, turbidez e condutividade, além de testes para identificar bactérias e contaminantes. As análises permitem compreender como atividades humanas interferem na saúde dos rios.
Ernani de Paula, diretor pedagógico, afirma que o objetivo é aproximar os estudantes da investigação científica aplicada ao território urbano. “Quando um estudante mede a turbidez ou identifica a presença de nutrientes em excesso, ele percebe como hábitos de consumo, ocupação do solo e políticas públicas se refletem na água que corre perto de sua casa.”
Nos anos finais da educação básica, a discussão climática também ganha dimensão tecnológica. No Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo, alunos do ensino médio e dos cursos técnicos desenvolvem projetos ligados à gestão de recursos naturais e à eficiência energética.
Entre as iniciativas estão sistemas de captação e tratamento de água da chuva, experimentos com produção de hidrogênio por eletrólise e aplicações de automação voltadas ao monitoramento do consumo energético.
A coordenadora de Ciências da Natureza, Nicolle Reuter, afirma que o objetivo é aproximar o conhecimento científico de problemas ambientais concretos. “Quando o estudante percebe que a água da chuva pode ser reaproveitada e que existe um risco biológico que precisa ser controlado, ele entende que a ciência é ferramenta para pensar a preservação do planeta.”
Os projetos começam em simulações feitas em softwares e avançam para a construção de protótipos. Para o coordenador do curso técnico de Automação Industrial, Sérgio Melconian, esse percurso amplia a compreensão dos desafios ambientais. “Os estudantes passam da modelagem para o problema real. Precisam pensar como controlar microrganismos na água ou monitorar consumo energético em ambientes complexos.”
O debate climático nas escolas que incorporaram o assunto ao currículo, surge quando crianças observam o funcionamento de um ecossistema, quando estudantes analisam dados ambientais ou quando jovens investigam a qualidade da água que atravessa suas cidades. Ao longo da vida escolar, essas experiências se transformam em leitura científica do mundo e em capacidade de propor soluções. “É nesse percurso que se forma uma geração capaz de compreender as transformações ambientais do planeta e participar das decisões que definirão seu futuro”, afirma o biólogo e coordenador da área de Ciências da Escola Vera Cruz, André Reinach.