O que passa por brincadeira entre os melhores amigos pode ser, na prática, uma agressão que ninguém nomeia e que por isso nunca para
Matéria publicada no Estadão em 11/05/2026
“Eu queria muito cortar o cabelo, mas sabia que meus amigos iam zoar comigo e demorei um tempão pra tomar coragem”. A frase, ou depoimento, é de um menino do 9º. Ano de uma escola bilíngue no Rio de Janeiro. No auditório da escola, onde eu conduzia uma roda de conversa com adolescentes sobre as microviolências que atravessam as relações sociais entre eles, esse garoto levantou a mão para dar um depoimento.
Os amigos ao qual ele se referia estavam sentados ao lado e enquanto ele contava toda história tinha um que ria e continuava fazendo “piada” com o cabelo novo do amigo. O menino, inclusive, contou que esse que ria tinha tirado uma foto dele, feito um gif e circulado no grupo de whatsapp da classe e é óbvio que ele tinha se incomodado. Mas como fazer o amigo entender que aquilo não era piada, não era brincadeira, que machuca?
Esse desrespeitar travestido de brincadeira é um dos maiores desafios das escolas contemporâneas e ele tem nome: microviolência. Não é uma agressão explícita e acontece entre amigos. Bem naquele círculo dos “melhores amigos”, e tá aí uma das razões que dificultam os envolvidos chegarem a uma solução.
Os comentários, ou apelidos, chegam disfarçados de piada ou de um jeito de ser do grupo. É um jeito de chamar o melhor amigo, digamos assim. E esse jeito promove risadas, exclusões silenciosas, comentários sobre o corpo ou o desempenho. Isoladas, parecem pequenas. Somadas — e repetidas –, configuram um processo de agressão contínua que o adolescente muitas vezes não consegue nem nomear. E quando ele não consegue nomear, não busca ajuda. Sofre, mas achando que é normal. Que é assim mesmo. Só que não é.
E aí está o nó: quando algo é socialmente aceito, a vítima começa a acreditar que é assim mesmo que as coisas funcionam. “É tão normalizado que o estudante começa a acreditar que faz parte do funcionamento”, diz psiquiatra Gustavo Estanislau, membro do Instituto Ame Sua Mente. “Sofre, mas não busca ajuda.”
O conflito, portanto, não é o problema. O problema é quando o conflito se torna agressão sistemática — e quando os adultos em volta não conseguem (ou não querem) ver a diferença. Daniel Helene, diretor pedagógico da Escola Vera Cruz, faz esse alerta: “nem toda agressão é bullying“. O bullying tem características específicas — repetição, desequilíbrio de poder, intencionalidade. Tratar situações distintas da mesma forma pode atrapalhar, e muito, a intervenção adequada.
Ernani de Paula, diretor pedagógico da Escola Villare, diferencia dois tipos de microviolência que costumam aparecer: as que os adultos reconhecem — vocativos inadequados, sorrisos quando alguém fala — e as que passam despercebidas, aquelas ligadas a referências internas do grupo, aparentemente neutras para quem está de fora. A escola organiza sua cultura de prevenção em torno de quatro áreas: corpo, objetos, reputação e pertencimento. “Cuidar dessas áreas é dever coletivo”, ele diz.
No Centro Educacional Pioneiro, os orientadores Renato Luginick e Carolina de Carvalho Vendramini identificam onde essas situações aparecem com mais frequência: pátios, banheiros, os espaços com menor supervisão adulta e, claro, o ambiente digital. “Criar repertório para reconhecer essas formas de violência é parte do trabalho preventivo”, dizem.
A diretora Cláudia Tricate, da Escola Magno/Mágico de Oz, faz um alerta que merece atenção: o que é gravíssimo para uma criança pode parecer irrelevante para outra. Mas quando situações se repetem, elas deixam de ser pontuais. E há um risco real no excesso de intervenção do adulto: “Quando o adulto resolve o problema no lugar do aluno, transmite a mensagem de que ele não é capaz de lidar com suas próprias questões. A mediação deve fortalecer a autonomia”.
Luciana Fevorini, do Colégio Equipe, observa que xingamentos e exclusões são frequentes, mas o bullying sistemático é menos comum do que se imagina. “As relações são dinâmicas. Os papéis se alternam.” Ela investe em intervenções intencionais nas dinâmicas de grupo, inclusive em viagens e atividades de integração. Sua observação sobre as redes sociais é precisa: “Elas tendem a eternizar episódios que seriam mais transitórios”. E é exatamente isso que muda o jogo. Um comentário que poderia ser esquecido em uma semana volta a circular meses depois. A dor não tem prazo de validade e o digital faz questão de lembrar isso.
O que ajuda — e o que piora
Estanislau é direto sobre as abordagens punitivas: elas tendem a piorar o cenário. “Intervenções muito punitivas deixam as pessoas mais reativas e mais cuidadosas em machucar o outro sem serem percebidas.” O que funciona é diferente: mudança do clima escolar, intervenções precoces, programas de competência socioemocional. Às vezes, ele diz, perguntar de 0 a 10 o quanto o aluno se sente conectado à escola já oferece um termômetro importante.
A psicóloga americana Lisa Damour, que escreve sobre adolescência para o New York Times, tem uma observação que ressoa aqui: adolescentes frequentemente resistem a conselhos porque não estão buscando soluções imediatas, estão buscando validação emocional. Escutar não é concordar. Escutar é dizer: eu entendi o que isso significa para você, agora vamos pensar juntos.
No manejo das microviolências, a escuta é o ponto de partida. Antes de qualquer intervenção, antes de qualquer protocolo, alguém precisa ser ouvido. Há uma tendência entre adultos, educadores e entre os próprios jovens de minimizar. “Foi mal entendido.” “Ela é muito sensível.” “É o jeito deles.” Essas frases não protegem ninguém. Pelo contrário, ensinam que a dor do outro não merece ser levada a sério.
Conflitos fazem parte do crescimento — isso é real. Mas conflito e violência não são a mesma coisa. E quando pequenas agressões se tornam rotineiras, elas deixam de ser pequenas. Passam a moldar, em silêncio, a forma como uma geração aprende a se relacionar, a pertencer, a ocupar espaço no mundo.
A mudança começa quando a gente para de perguntar se “foi de propósito” e começa a perguntar: o que essa situação está fazendo com quem está do outro lado? Porque o menino do 9º ano que esperou um tempão para cortar o cabelo não estava com medo de tesoura. Estava com medo dos amigos. E isso diz muito sobre o tipo de escola — e de adulto — que a gente quer ser.