O que cabe aos adultos diante do mal-estar adolescente?

Matéria publicada no Nexo em 22/04/2026

Cabe aos adultos escutar genuinamente as novas gerações, suas questões, anseios e temores, resguardando os tempos de reflexões pessoais e de contemplação da realidade

A adolescência é considerada uma invenção das sociedades industriais, fruto das expectativas de progresso que marcaram o século 20. Ao término da infância, um prolongado período passou a ser idealizado como preparo essencial para a vida adulta. Por meio de vários dispositivos e investimentos proporcionados pelas instituições responsáveis (família, escola, órgãos públicos), marcantes transformações biopsicossociais são esperadas durante essa travessia, de modo que o corpo, a mente e as relações interpessoais dos adolescentes amadureçam, para que sejam capazes de emancipação pessoal, atuação social e performance profissional.

Como toda construção histórica e social, a adolescência carregará as marcas e significados próprios do seu tempo e de sua cultura. Atualmente, é esperado que os adolescentes correspondam aos ideais contemporâneos de produtividade, saúde, sucesso, beleza, liberdade, consumo e felicidade tão fortemente veiculados pelos adultos, os quais passam a criar contextos, recursos e procedimentos que favoreçam essas conquistas. Em parte, os adolescentes tendem a absorver essa missão que lhes é depositada, reproduzindo o recado social de que precisam manter ou até superar o patamar de vida alcançado por seus antecessores, devolvendo a eles o resultado pelo qual tanto aguardam.

Por outro lado, os adolescentes têm capacidade crítica, contestam e relutam. Embora possam herdar simbolicamente os valores sociais de sua época, questionam as contradições e pontos cegos produzidos pela tentativa desenfreada de atender essas demandas, buscando afirmar novos passos e sentidos existenciais para o seu lugar no mundo. Por meio de defesas mais ou menos conciliatórias com os adultos, as novas gerações procuram encontrar sua própria afirmação. Esse processo de autoconhecimento e de encontrar formas de se colocar no mundo, costuma trazer inquietações, oscilações e até perturbações mais severas em seus comportamentos, sentimentos e relacionamentos.

A PenSE (Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar) 2024, realizada pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), traz um retrato importante da autopercepção dos adolescentes de 13 a 17 anos, de escolas públicas e privadas das diferentes regiões brasileiras. Houve um aumento expressivo do sentimento de tristeza, desamparo, desesperança, ansiedade e mau humor, sobretudo entre meninas. Lembrando que os meninos não estão isentos destas questões, mas são educados de modo a não expressarem seus sentimentos, o que também impacta sua saúde mental.

Fatores sociais, culturais e estruturais como assédio e violência de gênero (humilhações e agressões, inclusive online), pobreza menstrual (falta de dinheiro para comprar absorventes) e pressão estética (padrões de beleza sobre-humanos, que afetam a imagem corporal) estão associados aos impactos crescentes na saúde mental, principalmente das adolescentes. Soma-se a esses fatores o vertiginoso acesso dos jovens ao ambiente digital, que desfavorece a vivência de encontros, experiências e trocas não mediadas pelas telas. Essa “ausência” de interações, de experiências afetivas e de enfrentamento de conflitos em presença uns com os outros faz com que as experiências sociais se tornem breves, escassas e por vezes ameaçadoras, reforçando o poder das telas, território no qual crianças e adolescentes facilmente podem tomar contato com misoginia, fascismo, e outras formas de violência, desacompanhadas de um adulto.

Família e escola continuam sendo as principais instâncias de cuidado e socialização das crianças e adolescentes. Seu papel deveria presentificar outras possibilidades de vida em sociedade, que verdadeiramente respeitem as diferenças, estimulem a empatia, o olhar sensível para o outro, instiguem a criatividade coletiva, promovam o diálogo e a não violência e assegurem a equidade de direitos e o bem comum

Em uma sociedade que nas últimas décadas elevou a dominação masculinista, a desigualdade social e a imposição de certos padrões de felicidade, beleza e sucesso pessoal, seria hipócrita ficarmos surpresos com os resultados da pesquisa. Depositários de ideais culturais desse tipo, e abduzidos pelos algoritmos e o mundo performático apresentado nas telas, os adolescentes inescapavelmente seguirão nos devolvendo o mal-estar produzido por nossa época.

O que cabe aos adultos diante desse cenário? Acentuar ainda mais esses valores culturais que vêm descompensando a vitalidade humana, inclusive das novas gerações? Ou assumir uma posição de revisão dessa nociva dinâmica social? Parece óbvia a urgência da segunda alternativa.

Família e escola continuam sendo as principais instâncias de cuidado e socialização das crianças e adolescentes.
Seu papel deveria presentificar outras possibilidades de vida em sociedade, que verdadeiramente respeitem as diferenças, estimulem a empatia, o olhar sensível para o outro, instiguem a criatividade coletiva, promovam o diálogo e a não violência e assegurem a equidade de direitos e o bem comum.

Além disso, cabe aos adultos escutar genuinamente as novas gerações, suas questões, anseios e temores, resguardando os tempos de reflexões pessoais e de contemplação da realidade. Ao lado dos adolescentes, os adultos precisam alimentar e apostar nos sonhos de transformação social. E resistir à cooptação das telas e dos algoritmos, aos julgamentos superficiais, aos imperativos da moda e dos padrões estéticos e estáticos, refundando meios idôneos de vinculação socioafetiva.

Por fim, mas igualmente fundamental, os adultos precisam questionar e intervir nos rumos político-ideológicos que desconsideram as necessidades legítimas das novas gerações, demandando políticas públicas que invistam em espaços democráticos e seguros para a convivência entre todas as pessoas. Família e escola têm um compromisso geracional em comum diante dos adolescentes: convidá-los a sonhar e a lutar por um mundo menos desigual, menos violento, mais saudável e mais humanizado.

Maria Teresa de Oliveira Lima é psicóloga pela PUC-SP, pedagoga pela Faculdade de Educação da USP e mestra em Educação pela Unesp de Rio Claro. Atuou como professora, coordenadora pedagógica, orientadora educacional e psicóloga escolar em todos os níveis de ensino, da Educação Infantil ao Ensino Superior. Atualmente é psicóloga escolar do Ensino Médio e docente da disciplina Educação Inclusiva no Instituto Vera Cruz.

Simone Fernandes é Psicóloga pela USP. Atuou como orientadora educacional e assessora em escolas particulares, da Educação Infantil ao Ensino Médio, além de experiência em consultório e em instituições voltadas à formação de crianças e jovens. Atualmente é psicóloga escolar da Escola Vera Cruz.