Alta no consumo de ultraprocessados entre crianças reforça papel das escolas na formação alimentar

O aumento do consumo de alimentos ultraprocessados entre crianças brasileiras tem acendido o alerta de especialistas em saúde pública e educação. Estudos recentes apontam que esses produtos já ocupam uma parcela significativa da alimentação infantil, contribuindo para o avanço de problemas como obesidade, seletividade alimentar e baixa ingestão de alimentos in natura.

Diante desse cenário, escolas têm ampliado seu papel na formação de hábitos alimentares desde a primeira infância, como espaços de aprendizagem.

No Centro Educacional Pioneiro, em São Paulo, a alimentação foi incorporada ao projeto pedagógico como parte do desenvolvimento integral dos alunos. A proposta vai além do cardápio: envolve experiências práticas, construção de repertório e participação ativa das crianças.

A nutricionista Cristiane Sumida, responsável pela gestão do serviço de alimentação da escola, explica que o trabalho abrange todas as etapas. Do planejamento à execução. “A atuação não se limita à produção. Inclui elaboração de cardápio, escolha de fornecedores, gestão da equipe e acompanhamento do consumo das crianças”, afirma.

Mais do que garantir refeições equilibradas, a escola aposta na educação alimentar como estratégia pedagógica estruturada. Antes de cada encontro, a nutricionista se reúne com os professores para identificar desafios específicos em cada turma, como resistência a determinados alimentos ou baixa aceitação de alguns preparos.

A partir desse diagnóstico, são planejadas atividades práticas alinhadas às necessidades dos alunos.

“O que as crianças mais gostam é o ‘mão na massa’. A ideia é que elas participem do preparo, explorem texturas, cores e sabores. Isso gera curiosidade e reduz a rejeição”, diz.

Em uma das atividades, a beterraba foi transformada em tinta natural. As crianças manipularam o alimento, pintaram e, a partir da experiência sensorial, passaram a se aproximar do ingrediente de forma espontânea.

Segundo a nutricionista, o objetivo não é forçar o consumo imediato, mas ampliar repertório. “Experimentar não é necessariamente comer. É tocar, cheirar, provar aos poucos. O aprendizado acontece nesse processo.”

A abordagem acompanha o desenvolvimento infantil. Assim como aprendem a ler e escrever, as crianças também aprendem a comer em um processo gradual, que envolve repetição, estímulo e ambiente coletivo.

Além das oficinas, o trabalho inclui a construção de conhecimento com os alunos. Em turmas mais velhas, as crianças participam da elaboração do cardápio, entendendo a função dos diferentes grupos alimentares.

“Quando eles compreendem por que aquele alimento está ali, passam a se envolver mais. Deixam de ser apenas consumidores e se tornam parte do processo”, explica Cristiane.

Os efeitos aparecem no cotidiano. Segundo a escola, há casos em que crianças ampliam a aceitação de alimentos no ambiente escolar, muitas vezes surpreendendo as próprias famílias.

Outro eixo do trabalho é a inclusão alimentar. Crianças com restrições, alergias ou dificuldades recebem adaptações específicas, sem exclusão do convívio coletivo.

“Buscamos manter um cardápio único, com ajustes quando necessário. A ideia é incluir, não separar”, afirma.

O projeto também se estende às famílias, com o compartilhamento de receitas e orientações que incentivam a continuidade das experiências em casa.