Em uma sala de aula, a professora tenta conduzir a discussão. Parte dos alunos conversa, interrompe, dispersa. Quando um professor homem assume, o comportamento muda. Questionados sobre a diferença, os estudantes hesitam. Dizem que não perceberam. Depois admitem que perceberam, mas nunca tinham pensado sobre isso.
Cenas como essa têm levado escolas a rever como trabalham relações de gênero com adolescentes. O machismo segue presente, mas aparece menos como afirmação explícita e mais como comportamento naturalizado, piada recorrente ou silêncio coletivo.
Um estudo divulgado pela Agência Bori, conduzido por pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo e da Universidade Federal de Sergipe, indica que o sofrimento psíquico entre jovens está associado a experiências de violência, negligência emocional e ausência de pertencimento. Ao ouvir adolescentes em situação extrema, os pesquisadores apontam que a dor se forma nas relações.
“Quando abrimos espaço para ouvir os adolescentes, conseguimos compreender o que eles enfrentam”, afirma Rafaela Lima Monteiro, autora do estudo.
Nas escolas, esse mal-estar aparece também na forma como os alunos se colocam, ou deixam de se colocar. Na Escola Vera Cruz, as psicólogas Maria Teresa de Oliveira Lima e Simone Fernandes observam alunos mais cautelosos para falar em público, com receio de julgamento e exposição.
“Eles preferem ser ouvidos individualmente, com garantias de uma privacidade que se estilhaçou”, diz Simone.
O efeito aparece na convivência: grupos mais fechados, dificuldade de sustentar diferenças e menor disposição para expor ideias.
A escola insiste em trabalho para reabrir os espaços de fala. No Ensino Médio, rodas de conversa, atividades em pequenos grupos e projetos como o Coletivo Ela, dedicado a discutir gênero, funcionam como estratégias para ampliar a participação. Filmes e debates mediados pelos próprios alunos também entram como forma de favorecer a reflexão.
No Colégio Equipe, o orientador educacional Maurício Ferreira Freitas conduz, com a orientadora Isa Cortada, atividades com turmas do Fundamental 2. Meninos são convidados a responder como se veem e como gostariam de ser vistos.
As respostas revelam pressão para parecer forte, esconder emoções e evitar qualquer comportamento que os exponha ao grupo. Ao mesmo tempo, eles reconhecem agressividade nas relações e dificuldade de conversar seriamente entre si.
Em uma das turmas, alunos apontaram como vantagem de ser menino andar na rua com menos medo, ser menos cobrado pela aparência e ser mais ouvido em sala. Em outra, a discussão não avançou. “Eles podem não falar e tratar tudo como brincadeira”, diz Maurício.
Para ele, o desafio é intervir sem transformar o aluno em rótulo. “São crianças. A gente não pode transformar um menino de 10 anos em um homem machista e violento”, afirma.
Na Escola Villare, a professora de Língua Portuguesa e Projeto de Vida, Danielle Takase Queiroz, usa a música como ponto de entrada. Letras e vídeos são analisados em sala para identificar padrões de controle, ciúme e objetificação.
“Eles escutam as músicas, mas nunca prestaram atenção nas letras. Se assustam quando percebem que, em muitas delas, a mensagem não é positiva”, diz.
O recurso permite discutir relações sem exposição direta. Ao reconhecer esses elementos em conteúdos conhecidos, os alunos conseguem falar sobre o tema com mais abertura.
No Colégio Magno, a diretora Claudia Tricate afirma que o enfrentamento do machismo passa por uma escolha pedagógica: trabalhar diretamente com os meninos.
“Não podemos só proteger as meninas. Temos que trabalhar com os meninos para que se conscientizem”, diz.
O colégio aposta em ações preventivas, com mediação docente e espaços estruturados de debate. Em atividades como a Semana de Humanidades, organizada pelos alunos com acompanhamento de professores, temas sensíveis entram em discussão e exigem convivência com posições divergentes.
A proposta, segundo Claudia, é criar situações em que os alunos precisem sustentar suas posições diante do coletivo.
No Centro Educacional Pioneiro, o enfrentamento passa por um trabalho contínuo de convivência ética, que atravessa o currículo desde os primeiros anos.
Segundo o diretor pedagógico Mario Fioranelli, temas ligados a respeito, responsabilidade e relações são incorporados ao cotidiano escolar e não aparecem apenas em momentos de conflito. “Os alunos são convidados a pensar em gentileza, cuidado com o espaço e responsabilidade pelo outro”, afirma.
O colégio parte do princípio de que comportamentos de desrespeito se formam cedo. “Não dá para tratar como ‘é só uma criança’. Se a gente não acompanha, isso se fortalece depois”, diz Débora Martins, diretora da Educação Infantil e do Fundamental 1.
“Sem esse acompanhamento, o comportamento se repete e muitas vezes sem ser nomeado”, diz a diretora, Debora Martins.