A distribuição gratuita de absorventes nas escolas públicas brasileiras, prevista no Programa de Proteção e Promoção da Saúde Menstrual e ampliada nos últimos anos pelo governo federal, começa a ganhar desdobramentos também no ensino privado, ainda que por caminhos distintos. Em algumas escolas, o tema deixa de ser apenas política pública e passa a integrar o currículo, como forma de aproximar os alunos de problemas concretos que afetam a permanência escolar e a dignidade de meninas e mulheres.
Em São Caetano do Sul, alunos do 8º ano da Escola Villare desenvolveram um projeto que articula diferentes áreas do conhecimento para compreender e enfrentar a pobreza menstrual. O ponto de partida surgiu nas aulas de Ciências, na frente de Biologia, conduzidas pela professora Janaína Katinskas, quando discussões sobre saúde, higiene e condições de vida levaram os estudantes a investigar a falta de acesso a absorventes entre populações vulneráveis.
A partir desse diagnóstico, o tema passou a orientar o trabalho ao longo do semestre. Em Ciências, os alunos estudaram o corpo humano e os cuidados com a saúde. Em Química, testaram a capacidade de absorção dos materiais que seriam doados. Em Matemática, analisaram critérios de custo e viabilidade para a compra dos produtos. Em História, aprofundaram a dimensão social e histórica da desigualdade de gênero. O projeto resultou na organização de uma campanha de arrecadação de absorventes, estruturada pelos próprios estudantes, que definiram estratégias de mobilização, envolveram a comunidade escolar e articularam a distribuição com organizações que atuam em territórios vulneráveis.
“A escola busca evitar o assistencialismo. O objetivo é compreender as causas estruturais do problema e discutir direitos e cidadania”, afirma Janaína Katinskas. Segundo a professora de Ciências, o envolvimento direto dos alunos na construção da ação altera a forma como eles percebem a realidade. “Eles deixam de ver essas questões como distantes e passam a compreendê-las como parte do entorno.”
A iniciativa deixou de ser pontual e passou a integrar a dinâmica da escola, com novas turmas dando continuidade ao projeto e ampliando suas estratégias a cada ano. Para a equipe pedagógica, o principal resultado está na formação dos estudantes, que passam a relacionar conteúdos curriculares a situações reais e a reconhecer seu papel diante de desigualdades presentes na sociedade.