O que as músicas ensinam sobre amor e violência aos adolescentes

O aumento de discursos machistas entre jovens voltou ao centro do debate após a divulgação de um levantamento reunido pela Agência Bori, que aponta a influência de conteúdos culturais e digitais na formação de valores sobre gênero e relações afetivas. Em sala de aula, esse processo aparece menos como discurso estruturado e mais como comportamento incorporado.

Na Escola Villare, em São Caetano do Sul, esse fenômeno passou a ser tratado de forma direta no Ensino Médio. A professora Danielle Takase Queiroz, responsável pelo componente de Projeto de Vida, desenvolve um trabalho centrado na análise de músicas como forma de compreender como adolescentes constroem suas referências afetivas.

“O ser humano aprende a se relacionar por imitação”, afirma. “Quando perguntei aos alunos onde foi que aprenderam o que é amor ou carinho, ninguém disse que foi na escola.”

A constatação orienta a estrutura do projeto. Integrado ao PSHEE, componente de origem britânica voltado ao desenvolvimento pessoal, social e emocional, o trabalho parte do reconhecimento de emoções individuais e avança para a análise das relações. A música entra como material de investigação.

Os alunos foram convidados a selecionar letras que fazem parte do cotidiano deles. Sem restrição de gênero, o objetivo era identificar que tipo de relação estava sendo narrada, como ela se desenvolvia e quais comportamentos eram apresentados como desejáveis.

O primeiro resultado foi um deslocamento de percepção. Relações inicialmente classificadas como positivas passaram a revelar dependência emocional, controle e idealização. “Muitas músicas associam amor a algo incontrolável, à ideia de que não existe vida sem o outro”, diz Danielle.

A análise também desmontou uma leitura simplificada que associa comportamentos problemáticos a determinados estilos musicais. Segundo a professora, os padrões se repetem em diferentes gêneros. Ciúme tratado como prova de afeto, sofrimento como medida de intensidade, vingança como resposta à rejeição e o uso de álcool como forma de lidar com frustrações apareceram com frequência nas discussões.

Entre as alunas, o impacto atravessou rapidamente a análise das letras e alcançou experiências concretas. “Elas começaram a reconhecer sinais de alerta nas próprias relações ou nas relações de amigas”, afirma. Situações de controle sobre amizades, restrição de contatos e chantagem emocional surgiram nos relatos.

Entre os alunos, a identificação ocorreu em outro registro. Um dos exemplos citados pela professora envolve a análise de letras marcadas por ressentimento após o término de relacionamentos. “Ele percebeu que se identificava com aquele sentimento, mas também que precisava entender como lidar com ele sem atingir outra pessoa.”

A proposta não busca estabelecer julgamento sobre o repertório cultural dos estudantes, mas criar distanciamento crítico. “Não se trata de dizer que a música está errada. É entender o que ela está dizendo e o que isso produz.”

Na etapa seguinte, o trabalho introduz a distinção entre violência explícita e micro violência. A partir da metáfora do iceberg, os alunos organizaram comportamentos em diferentes níveis. Na superfície, agressões evidentes. Abaixo, práticas mais sutis, como apelidos ofensivos naturalizados, julgamentos constantes, manipulação emocional e inversão de culpa.

“Quando o xingamento vira piada, ele deixa de ser percebido como agressão”, afirma Danielle.

O exercício se expandiu para outros contextos. Ao analisar músicas que abordam relações familiares, os alunos identificaram um tema recorrente: o medo de decepcionar os pais. “Foi quando eles mais se abriram. Apareceu muito a angústia de não corresponder às expectativas”, diz.

O projeto culmina em uma etapa prática baseada em situações-problema. Inspirada em modelos de avaliação utilizados na formação médica, a professora apresenta casos construídos a partir de situações reais, como a circulação de imagens manipuladas de colegas em grupos de mensagens.

Sem respostas pré-definidas, os alunos são levados a avaliar possíveis reações e suas consequências. Compartilhar, ignorar, denunciar ou apoiar a vítima. Cada escolha é confrontada com os valores que eles próprios afirmam defender.

“Eu queria que eles pensassem no que fariam de fato, não no que gostariam de responder.”

O objetivo não é construir um código de conduta, mas desenvolver critérios de leitura da realidade. “Se eu digo que respeito é um valor importante, o que isso exige de mim numa situação concreta?”

A experiência evidencia uma mudança no papel da escola diante das transformações culturais recentes. A formação relacional, tradicionalmente tratada de forma indireta, passa a ser incorporada como objeto de trabalho pedagógico estruturado.

“Meu desafio é didatizar algo que sempre foi aprendido fora da escola”, afirma a professora.