Indústria exige operação de sistemas e amplia demanda por técnicos

A indústria brasileira deve manter alta demanda por trabalhadores até 2027, sobretudo em funções técnicas ligadas à manutenção, operação de máquinas e sistemas industriais, segundo estudo do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial. Parte dessas vagas se concentra em ocupações como eletrotécnica, automação e processos industriais. Ainda assim, empresas relatam dificuldade em preencher posições que exigem atuação direta em ambientes produtivos.

O problema está na dificuldade de transformar conhecimento em capacidade de operação.

Em setores que incorporaram tecnologia de forma acelerada, a rotina deixou de ser previsível. Sistemas operam com múltiplas variáveis, exigem monitoramento contínuo e decisões em tempo real. A demanda recai sobre profissionais capazes de interpretar dados, ajustar parâmetros e responder a situações fora de padrão.

Empresas passaram a procurar escolas técnicas para indicar lacunas de formação. No Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo, esse diálogo ocorre de forma recorrente. Segundo Fernando Ribeiro, coordenador dos cursos técnicos, representantes de setores como infraestrutura, tecnologia e construção procuram a instituição para apontar áreas com escassez de mão de obra e discutir perfis profissionais.

“Há um diálogo direto. As empresas mostram onde estão as dificuldades, e isso orienta os projetos e a formação dos alunos”, afirma.

A aproximação se traduz no tipo de atividade desenvolvida ao longo do ensino médio integrado ao técnico. Em laboratórios voltados à eficiência energética e às energias renováveis, estudantes trabalham com simulação de consumo, configuração de sensores e análise de desempenho de sistemas. As atividades mobilizam conteúdos de física, química e matemática em situações que exigem decisão, teste e ajuste.

Em um dos projetos, um problema recorrente em laboratório, a umidade que compromete lentes de microscópios, deu origem a estudos sobre controle ambiental. A partir desse ponto, alunos passaram a testar variáveis, avaliar consumo energético e propor ajustes em sistemas capazes de reduzir danos e otimizar funcionamento.

“O estudante precisa compreender o funcionamento de um sistema, mas também ser capaz de avaliar se ele é eficiente e sustentável”, afirma Sérgio Minas Melconian, coordenador do curso técnico em Eletrotécnica do Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo.

Esse movimento alcança também os trabalhos de conclusão de curso. Segundo Melconian, há um esforço para incorporar demandas externas aos projetos, com foco em desenvolver soluções ligadas à automação de processos e ao monitoramento de sistemas.

Hoje atuando na área de automação após concluir o curso técnico em 2024, Murilo Azevedo desenvolveu, ainda no Liceu, um calorímetro automatizado voltado a aplicações produtivas. Durante a formação, teve contato direto com programação, testes e operação de equipamentos, experiência que, segundo ele, reduziu a distância entre escola e trabalho.

“Você programa, mede, erra, corrige. Quando entra no mercado, esse processo já faz parte da rotina”, diz.

A inserção profissional começa ainda durante o ensino médio. Estudantes participam de processos seletivos e ingressam em estágios supervisionados, acompanhados pela escola. Empresas utilizam esse canal para recrutar jovens com familiaridade com operação de sistemas e leitura de dados.

Recrutadores da área técnica apontam que a principal dificuldade não está na formação conceitual, mas na capacidade de atuação prática. Empresas buscam candidatos que consigam lidar com variáveis em tempo real e interpretar dados de operação.

A inteligência artificial aparece integrada a sistemas de monitoramento, detecção de anomalias e análise de desempenho, conectada a equipamentos e rotinas operacionais.

“A inteligência artificial está dentro do sistema. Para trabalhar com isso, o aluno precisa entender como esse sistema funciona”, afirma Ribeiro.

A incorporação recente de kits de robótica inspirados em princípios de biomimética amplia esse campo de atuação. Os equipamentos permitem simular mecanismos baseados em estruturas naturais, com aplicações em inspeção, manipulação e automação. A formação de professores para uso desses recursos está prevista para os próximos dias.