Comportamentos naturalizados, medo de exposição e dificuldade de diálogo desafiam educadores; escolas apostam em rodas de conversa e projetos de convivência
Matéria publicada na Educação & Tendências em 08/05/2026
Em uma sala de aula, a professora tenta conduzir uma discussão. Parte dos alunos conversa paralelamente, interrompe, dispersa. Quando um professor homem assume a atividade, o comportamento muda quase imediatamente. Questionados sobre a diferença, os estudantes primeiro negam perceber algo diferente. Depois admitem: perceberam, mas nunca haviam refletido sobre isso.
Situações como essa têm levado escolas brasileiras a rever a forma como trabalham relações de gênero, convivência e saúde emocional entre adolescentes. O machismo continua presente no ambiente escolar, mas muitas vezes aparece de forma menos explícita, em piadas recorrentes, interrupções, silêncios, deslegitimação da fala feminina ou comportamentos naturalizados.
O debate ganhou ainda mais urgência em 2026, em um cenário marcado pelo aumento das discussões sobre violência nas escolas, saúde mental juvenil e influência das redes sociais na formação de comportamentos entre adolescentes.
Dados divulgados neste ano pelo IBGE, na nova edição da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), mostram que 39,8% dos estudantes brasileiros de 13 a 17 anos afirmam já ter sofrido bullying na escola. Entre as meninas, o índice sobe para 43,3%. Além disso, 16,6% relatam já ter sofrido agressões físicas de colegas.
A pesquisa também revela que 12,7% dos adolescentes sofreram cyberbullying, enquanto 10% admitem já ter praticado agressões nas redes sociais. Entre os meninos, o percentual de autores declarados é maior.
Especialistas afirmam que esses números ajudam a compreender um ambiente escolar onde o sofrimento emocional e os conflitos de convivência estão cada vez mais conectados às relações interpessoais e às dinâmicas sociais construídas dentro e fora da internet.
Um estudo divulgado pela Agência Bori, conduzido por pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e da Universidade Federal de Sergipe (UFS), aponta que o sofrimento psíquico entre adolescentes está diretamente relacionado a experiências de violência, negligência emocional e ausência de pertencimento.
“Quando abrimos espaço para ouvir os adolescentes, conseguimos compreender o que eles enfrentam”, afirma Rafaela Lima Monteiro, autora do estudo.
Medo de julgamento e retração nas relações
Na Escola Vera Cruz, as psicólogas Maria Teresa de Oliveira Lima e Simone Fernandes observam adolescentes mais cautelosos para se expor em público. Segundo elas, muitos estudantes evitam falar em grupo por medo de julgamento, exposição ou ridicularização.
“Eles preferem ser ouvidos individualmente, com garantias de uma privacidade que se estilhaçou”, diz Simone.
O efeito aparece na convivência cotidiana: grupos mais fechados, menos disposição para sustentar divergências e dificuldade crescente de dialogar sobre conflitos.
Para enfrentar esse cenário, a escola aposta em rodas de conversa, trabalhos em pequenos grupos e projetos como o Coletivo Ela, dedicado às discussões sobre gênero. Filmes, debates mediados pelos próprios alunos e atividades colaborativas também passaram a integrar as estratégias pedagógicas.
Masculinidade sob pressão
No Colégio Equipe, o orientador educacional Maurício Ferreira Freitas conduz atividades com alunos do Fundamental 2 ao lado da orientadora Isa Cortada. Em uma das propostas, os meninos respondem perguntas sobre como se enxergam e como acreditam que deveriam ser vistos pelos colegas.
As respostas revelam um padrão recorrente: pressão para parecer forte, esconder emoções e evitar qualquer comportamento que os torne vulneráveis diante do grupo.
Ao mesmo tempo, muitos reconhecem agressividade nas relações e dificuldade de conversar seriamente entre si.
Em uma das turmas, os estudantes apontaram como “vantagens” de ser menino andar na rua com menos medo, ser menos cobrado pela aparência e ser mais ouvido em sala de aula. Em outra, a discussão quase não avançou. “Eles podem não falar e tratar tudo como brincadeira”, afirma Maurício.
Para o educador, o desafio está em trabalhar o tema sem rotular precocemente os estudantes.
“São crianças. A gente não pode transformar um menino de 10 anos em um homem machista e violento”, diz.
A música como porta de entrada para o debate
Na Escola Villare, a professora Danielle Takase Queiroz utiliza músicas populares e vídeos consumidos pelos adolescentes para discutir relações afetivas, ciúme, controle e objetificação feminina.
“Eles escutam as músicas, mas nunca prestaram atenção nas letras. Se assustam quando percebem que, em muitas delas, a mensagem não é positiva”, afirma.
Segundo a professora, o recurso permite abordar temas delicados sem expor diretamente os alunos. Ao reconhecer comportamentos problemáticos em conteúdos que já fazem parte de seu cotidiano, os adolescentes conseguem discutir o assunto com mais abertura.
Trabalhar com os meninos também é prevenção
No Colégio Magno, a diretora Claudia Tricate afirma que o enfrentamento ao machismo depende de uma decisão pedagógica clara: incluir os meninos no centro da discussão.
“Não podemos só proteger as meninas. Temos que trabalhar com os meninos para que se conscientizem”, diz.
O colégio investe em ações preventivas, mediação docente e espaços estruturados de debate. Na Semana de Humanidades, organizada pelos próprios alunos com acompanhamento de professores, temas ligados a gênero, convivência e respeito são colocados em pauta diante de diferentes visões.
A proposta, segundo Claudia, é criar situações em que os estudantes precisem sustentar argumentos, ouvir divergências e conviver com posições opostas.
O comportamento começa cedo
No Centro Educacional Pioneiro, o trabalho começa desde os primeiros anos escolares.
Segundo o diretor pedagógico Mario Fioranelli, temas ligados a respeito, responsabilidade e convivência ética atravessam o currículo e fazem parte da rotina escolar, não apenas de momentos de crise.
“Os alunos são convidados a pensar em gentileza, cuidado com o espaço e responsabilidade pelo outro”, afirma.
A diretora da Educação Infantil e Fundamental 1, Débora Martins, ressalta que comportamentos de desrespeito não surgem apenas na adolescência.
“Não dá para tratar como ‘é só uma criança’. Se a gente não acompanha, isso se fortalece depois”, afirma.
“Sem esse acompanhamento, o comportamento se repete e muitas vezes sem ser nomeado.”
Redes sociais, misoginia e novos desafios escolares
Especialistas apontam que parte importante dessa discussão hoje passa pelas redes sociais. Relatórios recentes da UNESCO alertam para o crescimento global de discursos misóginos e conteúdos extremistas consumidos por adolescentes online.
Em entrevista publicada pela Fiocruz em 2026, pesquisadores afirmaram que misoginia, racismo e discursos de ódio já aparecem associados ao recrutamento de adolescentes em ambientes extremistas digitais.
O debate já levou países a rever políticas educacionais. No Reino Unido, por exemplo, escolas passarão a oferecer aulas obrigatórias contra a misoginia a partir de setembro de 2026, como resposta ao aumento de conteúdos de ódio direcionados às mulheres entre jovens nas redes sociais.
No Brasil, educadores defendem que a escola não pode mais tratar temas como machismo, convivência e masculinidade apenas como episódios isolados de indisciplina.
A percepção crescente entre especialistas é que o enfrentamento passa menos por punições pontuais e mais pela criação contínua de espaços seguros de diálogo, escuta e construção coletiva de relações mais saudáveis.