Pandemia coloca escolas e professores no século 21

Há alguns anos, era comum a tese que a professora era do século 19, a escola do século 20 e os alunos do século 21. A pandemia mudou este cenário, principalmente para os professores e escolas. Passados nove meses de ensino remoto, é possível constatar que muitas professoras estão totalmente alfabetizadas digitalmente. O uso da tecnologia despertou docentes mais habilidosos e criativos.

O início foi muito difícil, é verdade. Os especialistas em tecnologia educacional, que dão suporte, cursos, oficinas e formações em grupos e individuais para os professores, coordenadores e assessores de áreas, tiveram de alfabetizar digitalmente os que não tinham familiaridade com o mundo da tecnologia. Hoje, as escolas têm registrado ganhos importantes na potência e desenvolvimento das pedagogias aplicadas com a tecnologia.

Debora Sebrian, do Centro Educacional Pioneiro, avalia que, neste momento, 100% dos educadores se alfabetizaram digitalmente e estão indo além, descobrindo novas possibilidades para as suas aulas, conforme vão aumentando sua autonomia no trato dos recursos tecnológicos e o conhecimento das novas linguagens. “Cada vez mais a tecnologia está se tornando a linguagem, e não meio e suporte para os professores do Pioneiro”, comemora.

Na Stance Dual, Juliana Caetano lançou como estratégia uma didática bem conhecida das professoras: a problematização. No seu trabalho de formação dos professores como aprendizes da cultura digital, ela inventou muitos desafios. “O professor tem de aprender mexendo e aprender com o colega, para sair do senso comum e inovar. Uma das estratégias que utilizo é lançar um problema e com qual ferramenta quero que resolvam. Nesses momentos, eles têm de pensar como querem que seus alunos pensem quando têm de resolver algo”, conta Caetano.

A consultora em tecnologia educacional da escola Gracinha, Claudia Rossi, responsável pela área desde 2019, observa avanços significativos na usabilidade de recursos tecnológicos em suas múltiplas linguagens. “Tem professor que utiliza a linguagem dos memes em suas aulas de física, e projetos interdisciplinares acontecendo que envolvem várias disciplinas e alunos de escolas diferentes. Tudo no ambiente virtual, e os alunos protagonistas dos seus saberes”, diz.

Marcelo Ganzela, coordenador do curso de Letras no Instituto Singularidades, instituição especializada na formação de professores, destaca que a pandemia incentivou a troca de saberes e a solidariedade entre os professores. “Os docentes mais familiarizados com linguagens tecnológicas ensinam, nos encontros de formação, os demais colegas. Esse formato está sendo muito produtivo e apreciado por todos”, afirma.

A alfabetização digital dos professores, no entanto, precisa estar alinhada com novas pedagogias e didáticas, alerta o professor em tecnologia educacional na universidade de Columbia (EUA), Paulo Blikstein. Na opinião dele, a tecnologia só representa inovação quando está a serviço de uma teoria educacional e pedagógica emancipatória. Caso contrário, será o mesmo velho sistema. “Só dá para dizer que a educação é inovadora, quando a pedagogia muda. Quando a concepção de ensino muda e a pedagogia é excelente, o ensino e a aprendizagem inovam juntos”, diz o diretor do Transformative Learning Technologies Lab (TLTL) de Columbia

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